Editorial, O Globo
A votação do projeto do senador Ciro Nogueira (PP-PI) que
abre as portas para a legalização dos jogos de azar no país, prevista para
amanhã no Senado, recebeu críticas precisas do Ministério Público Federal. É
imperioso que os parlamentares as levem em consideração.
Em si, a proposta é deletéria para o país por todos os
ângulos em que se analise a questão — político, criminal, econômico e ético. E,
em seu âmbito conjuntural, também a eventual aprovação do relatório do agora
ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que, no exercício do mandato, elaborou o
texto que irá ao plenário da Casa, será eticamente desastrosa para o país.
A iniciativa leva para o Parlamento a discussão do tema num
momento sensível, em que há senadores e deputados sob investigação, alguns
notoriamente ligados ao lobby da jogatina. A quem interessa a legalização dos
jogos de azar?
É hipócrita, por falso, o argumento de que o dinheiro da
jogatina tirada da clandestinidade terá impacto positivo no ajuste fiscal. Da
clandestinidade, grupos criminosos, alguns inclusive ligados a quadrilhas
mafiosas internacionais, controlam o grande volume de dinheiro que circula em
cassinos ilegais, no jogo do bicho, em máquinas caça-níqueis.
“Os criminosos chegaram a um limite de realização de seus
lucros e, para dar um salto além disso, necessitam da legalização dessas
modalidades”, observa o procurador Peterson de Paula, ao condenar a iniciativa
do Senado, em nome do procurador-geral Janot.
Ou seja, mesmo legalizado, o jogo continuará operando lucros
ao largo dos mecanismos de controle fiscal. São vozes sensatas, portanto, que
se levantam contra a jogatina que se pretende implantar no país.
Ainda nas palavras do procurador Peterson de Paula, “quem
controla essas atividades não se intimida em matar, corromper, desrespeitar
qualquer norma”. Rio e São Paulo, os dois maiores centros do país de exploração
clandestina dos jogos de azar, são ricos em exemplos da ação do crime
organizado na defesa, pela violência, de territórios conquistados e de avanço,
também à custa de mortes e intimidações, sobre áreas ainda inalcançadas por
seus domínios.
Uma questão adjacente, a equivocada decisão do STF de
proibir o financiamento de campanha por empresas privadas levará, por certo, ao
incremento do caixa dois nas eleições. Liberado o jogo, os esquemas de lavagem
dos grupos do crime organizado que o dominam por certo irrigarão campanhas, já
no pleito deste ano.
Por todos estes aspectos, é preciso conter o lobby de
parlamentares ligados a interesses da jogatina. O lulopetismo andou batendo
pestana para esses grupos, de olho no falso brilhante do reforço legal de caixa
do afastado governo Dilma; a base parlamentar do presidente interino, Michel
Temer, não pode incorrer no mesmo erro. Ao contrário, deve dar inequívoca
demonstração de que repudia qualquer movimento nesse sentido.

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