Artigo de Gaudêncio Torquato
Há 39 anos, no dia 8 de agosto de 1977, do pátio das Arcadas,
no Largo de São Francisco, em São Paulo, o jurista Goffredo da Silva Telles
Jr., do alto de sua sabedoria, interpretando o sentimento cívico da Nação, leu
a bela e densa Carta aos Brasileiros. Sua peroração foi uma magistral aula de
Direito: “Proclamamos que o Estado legítimo é o Estado de Direito, e que o
Estado de Direito é o Estado Constitucional”. O Brasil entrava nos trilhos da
redemocratização.
Em 22 de junho de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva, com a
intenção de amenizar a pecha ideológica que se projetava sobre sua imagem e
ganhar a confiança dos brasileiros, leu também uma Carta aos Brasileiros, assim
iniciada: “O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar
para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça
social que tanto almejamos. Há em nosso país uma poderosa vontade popular de
encerrar o atual ciclo econômico e político.”
A carta de Lula execrava a política econômica do governo
FHC, sinalizando na direção da responsabilidade fiscal e combate à inflação.
Até 2008, o governo cumpriu a promessa. Mas, lembra o economista Mansueto
Almeida, a partir de 2008/2009, o compromisso com o equilíbrio fiscal foi
esquecido. Teve início “uma expansão vigorosa da dívida pública para emprestar
via bancos públicos para empresas e setores a juros camaradas às custas dos contribuintes, em um momento
seguinte, a saúde financeira da estatais foi comprometida com o controle
artificial do preço da energia e combustíveis, o governo começou a intervir
excessivamente na economia, passando a
fazer uso de truques contábeis para fechar suas contas.” Um verdadeiro
desastre.
Uma nova carta
Hoje, Lula e Dilma anunciam a intenção de ler uma nova Carta
aos Brasileiros, onde acusariam o “golpe” com a intenção de afastar a
presidente e exporiam a esdrúxula ideia: Dilma voltaria ao governo, mas Lula
assumiria de fato o comando do país e, nessa condição, executaria redentora
política econômica. Nesse caso, a presidente Rousseff seria entronizada no
papel de “rainha da Inglaterra”. Um despautério. Sabe-se que o tutor e a pupila
são exímios na arte de arrolar argumentos sobre Ordem e Direito. O impeachment,
para eles, não passa de um movimento “golpista”. Vai para o lixo o ensinamento do mestre Goffredo, de que “o
Estado de Direito é o Estado que se submete ao princípio de que Governos e
governantes devem obediência à Constituição”. Quem definiu o rito do
impeachment? O STF. Dilma deixou de fazer sua defesa na Comissão do
Impeachment? Não. Seu advogado se fez presente e, convém reconhecer, com
atuação intensa.
Fosse “golpe”, a liturgia do impeachment seria desprezada
desde o início, com o afastamento do advogado de defesa. Ao contrário, o
cronograma do processo foi traçado pelo STF e seu presidente, ministro Ricardo
Lewandovski, tomou decisões importantes, como a oitiva de cerca de 40
testemunhas avocadas pela defesa. Esfacela-se a argumentação sobre “golpismo”.
As instituições nacionais funcionam a todo vapor, cada qual dando provimento à
sua agenda. Mais ainda: a par das ações desenvolvidas na esfera dos Poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário, convém lembrar que na 1ª. Instância deste
último desenvolve-se com toda a liberdade a maior investigação sobre corrupção
no Brasil, a comprovar que a Operação Lava Jato navega no piloto automático.
Ninguém será capaz de detê-la.
Por trás das intenções
Sob esse entendimento, convém tentar explicar o jogo de
intenções de Lula e Dilma, se mantiverem a proposta de leitura de uma nova
carta aos brasileiros. Para início de conversa, Luiz Inácio estaria mais
inclinado a cutucar a alma da militância, cujo desânimo se escancara na esteira
de sucessivos escândalos envolvendo seus quadros, o último dos quais abrigando
o ex-tesoureiro Paulo Ferreira, que teria desviado recursos para escolas de
samba. O PT tem hoje cerca de 650 prefeitos. Precisa manter essa base para a
decolagem da campanha de 2018. O Partido poderá sofrer imensa derrota em
outubro. Não é de todo improvável a tese de que o trombeteiro Lula gostaria de
voltar quanto antes aos palanques, a partir do Nordeste, onde ainda detém
força. É conveniente o afastamento definitivo e rápido de Dilma – que se firma
como sentimento geral a cada dia – , o que vestiria o PT com o manto da
oposição.
(Aliás, a identidade do PT é bem próxima ao território da
oposição. Em um momento de seu primeiro mandato, num palanque do Nordeste, o
então presidente Luiz Inácio chegou a perorar: “este governo deveria fazer...este
governo não pode esquecer....este governo precisa....). Ora, era o governo
dele. Este consultor registrou o fato naquela ocasião).
Portanto, a encenação de Lula tem o objetivo de manifestar
apoio público à presidente Dilma, sinalizando resistência e apoio irrestrito à
companheira, e mobilizar a militância. Expande-se, porém, a versão de que ambos
já estão conscientes de ser praticamente impossível fazer a pasta voltar ao
interior do tubo. Ademais, como lembrou Marx, a história acontece pela primeira
vez como tragédia, a segunda como farsa. Ou, usando a lição de Heráclito,
nenhum homem atravessa duas vezes o mesmo rio, pois ao entrar nele novamente, as águas serão outras, e a própria
pessoa já estará modificada. Tudo é regido pela dialética. O real de hoje é a
mudança do passado. Lula não é o mesmo da carta de 2002 aos brasileiros e Dilma
jamais teria nos dias atuais 54 milhões de votos. Ela perdeu o patrimônio
adquirido com o esforço de seu patrocinador.
Não pensem que poderão desfraldar a bandeira da esperança,
destroçada na era petista. Não pensem que o Reino da Mentira, tão bem descrito
pelo senador Rui Barbosa, nos idos de 1919, voltará à nossa ordem do dia:
“Mentira por tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu. Nos
inquéritos. Nas promessas. Nos projetos. Nas reformas. Nos progressos. Nas
convicções. Nas transmutações. Nas soluções. Nos homens, nos atos, nas coisas.
No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Nas
responsabilidades. Nos desmentidos.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário