Artigo de Fernando Gabeira
Nesta semana, li um artigo da colunista Sally Jenkins, do
“Washington Post”, afirmando que o Rio não está pronto para os Jogos Olímpicos
e a culpa é do Comitê Olímpico Internacional, o COI. Ela cita os mesmos
problemas de violência, poluição, crise econômica e acrescenta um que não
estava tanto no meu radar: a superbactéria encontrada nas praias de Copacabana.
Conhecida na intimidade científica como KPC, a superbactéria foi encontrada em
cinco praias da Zona Sul. Os pesquisadores da UFRJ, no entanto, após a
descoberta, afirmaram que não havia razões para alarme.
Todos os problemas apontados por ela me levaram a uma
conclusão diferente: a culpa é dos líderes brasileiros que optaram pela
Olimpíada no Rio. Mas a colunista do “Washington Post” tem razão ao afirmar que
o COI vacilou e é responsável pela aventura de milhares de turistas que virão
ao Rio ver os Jogos. Por baixo de tudo, afirma ela, estão milhões de dólares
que o negócio produz. Como um simples atleta amador, os Jogos já estão mudando
minha vida cotidiana. O trânsito está bastante lento. Na Lagoa Rodrigo de
Freitas um longo trecho foi interditado aos ciclistas e corredores.
No Flamengo vai ser inaugurada uma nova piscina. Os
norte-americanos vão treinar aqui. A primeira consequência da medida é a
retirada dos gatos. Eles sempre viveram nas proximidades da piscina. Houve um
momento em que a arquibancada era frequentada por um gambá, que fotografei
algumas vezes e era um belo animal. Não sei se os americanos não querem os
gatos ou se a própria direção do Flamengo aproveitou o pretexto para
expulsá-los. Mas não são os pequenos dissabores cotidianos que me preocupam
como atleta amador. É todo o enfoque da política brasileira voltada para os
grandes eventos e provas de alta performance.
No mês em que a Olimpíada começa foi fechada a Vila Olímpica
do Complexo do Alemão, chamada Carlos Castilho em homenagem ao fantástico
goleiro do FLU. Existe sempre uma tensão na política de esportes entre as
tendências de fazer muitos espectadores ou muitos praticantes do esporte. Não
são, necessariamente, contraditórias. Mas a ênfase no momento está no atletismo
de grande performance, no espetáculo. Na Zona Norte do Rio quase não há
piscinas em que a garotada possa aprender a nadar. Numa cidade como o Rio, os
esportes aquáticos como natação, water polo, surfe têm um enorme potencial de
crescimento.
A ênfase num espetáculo grandioso como a Olimpíada, num país
de cobertor curto como o nosso, significa, de certa maneira, sacrificar o
investimento no esporte amador, em sintonia com as escolas. A Olimpíada custa
e, conforme se propaga, deixará legados. Mas o que significa um velódromo para
os moradores da Zona Oeste que, diariamente, são obrigados a desbravar uma
ciclovia cheia de buracos, postes e lixo? Os custos dos Jogos não se limitam
aos investimentos feitos pelo governo. Eles se estendem também a uma extensa
rede de isenções de impostos, a mesma tática que o governo PT-PMDB usou para a
indústria automobilística. Recentemente, a cidade inaugurou um campo de golfe
na Barra da Tijuca. Havia outros no Rio, mas não estavam dentro dos padrões do
COI. O próprio Ministério Público já denunciou a obra como ambientalmente
incorreta. Logo depois disso, vi uma entrevista de Eduardo Paes, lamentando que
os grandes jogadores de golfe não queiram participar da Olimpíada do Rio. O
campo foi construído para eles e terá um papel secundário nos jogos.
Nada contra o golfe. Na verdade, quem tem algo contra o
golfe são os próprios políticos brasileiros que lutaram pela Olimpíada no Rio.
Lembro-me do diálogo de um garoto que morava na comunidade Nelson Mandela com
Lula e Cabral. Foi gravado e difundido na internet. Num momento do diálogo, o
garoto fala em seu desejo de aprender tênis. Lula responde agressivamente: mas
tênis é esporte burguês. Aproveitei a oportunidade, na época, para mostrar o
campo de golfe de Japeri, na Baixada Fluminense. Ali há um programa de ensino
para garotos da região. Um deles tornou-se campeão nacional. Isso não é o mais
importante. O fato é que todos os outros podem treinar, diariamente, e travar
contato com um esporte que desenvolve seu potencial humano como qualquer outra
modalidade. Concordo com a colunista do “Post” quando afirma que o COI se move
com a perspectiva do lucro. Mas e os políticos, se movem com que perspectiva?
Uma delas sem dúvida é a aspiração de glória e poder. Naquele
rápido e espontâneo diálogo com o garoto da Mandela, Lula e Cabral revelaram
não apenas preconceitos, mas também como são débeis seus vínculos com uma
política de democratização da prática esportiva. Continuo desejando que a
Olimpíada seja um êxito, embora a simples normalidade já baste. A esperança é
de que os políticos que vão surgir, disputando a modalidade voto direto,
reflitam melhor entre produzir espectadores ou produzir atores no cenário
esportivo.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 24/07/2016

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