Artigo de Fernando Gabeira
Um dos mais interessantes comentários que li sobre o
espetáculo de abertura da Olimpíada: parece um pesadelo de Trump. Diversidade,
aquecimento global, celebração das diversas levas de imigrantes e até uma
delegação de refugiados nos jogos — Trump passaria toda a noite pensando
naquelas cenas e, naturalmente, nos muros e proibições para evitá-las.
Na lagoa sem fronteiras, matinal, agora encontro gente de
muitas partes do mundo. E penso: se há alguma coisa que nos une é o medo de
Donald Trump tornar-se o presidente dos EUA. É o tipo de desastre político que
atingiria a todos. Vejo dois homens com a camisa da Nova Zelândia e penso na
juíza americana Ruth Bader Ginsburg, que, em caso de vitória de Trump, disse
que seria tempo de se mudar para a Nova Zelândia.
Mas será que haverá lugar para todo mundo na Nova Zelândia?
Onde o planeta encontraria seu refúgio? Em poucos momentos vi a cidade tão
cheia e, certamente, tão cheia de estrangeiros. Hoje com os aplicativos de
rotas, tradução, roteiros gastronômicos, eles não precisam falar tanto com os
nativos. Observo na imprensa estrangeira uma certa inquietude com o
comportamento da torcida brasileira. Mas o esporte mais popular no Brasil é o
futebol e torcidas de futebol, no mundo inteiro, são bem mais barulhentas,
debochadas e, em alguns casos, violentas. Estão sendo confrontados com
diferentes e quase desconhecidas modalidades esportivas. Na medida em que
entenderem, começam a gostar do jogo e vão usar o silêncio em nome da qualidade
do espetáculo.
Tenho visto muitos jogos. Às vezes, fico culpado por não
estar estudando. Mas o mundo do esporte de alta performance pode me ensinar
tanto quanto os livros. Observo que quase todos os atletas se referem ao
esporte a que se dedicam quase como um sacerdócio, como uma forma também de
entender a vida, seus altos e baixos, a força do trabalho cotidiano na
superação dos limites. Como são importante para eles o foco e a concentração.
Certamente já se estudou isso em outras modalidades. Mas ao ver a disputa de
tiro com arco lembrei-me de um livro clássico: “Zen e arte do tiro com arco”,
de Eugen Herrigel. Nesse livro, a prática do esporte e a reflexão sobre a vida
se entrelaçam. O arqueiro precisa respirar adequadamente, ajustar-se ao seu
arco como se fosse uma extensão do próprio corpo.
Um verso do poeta Affonso Romano de Sant’Anna enfatiza essa
unidade: o guerreiro solta a seta e no alvo se completa. Essa integração com o
instrumento e o estar atento no mundo são poderosos exemplos. O universo dos
atletas de alta performance é povoado de gente supertalentosa. No entanto,
assim como em quase todos os outros campos, se não trabalham duro não conseguem
os resultados. Claro que esses elementos não bastam. A criatividade, um lampejo
tático podem virar uma partida. Mas a cabeça só ajuda quem tem pernas. Nem
todos orientam sua vida para ganhar medalhas e superar limites, logo não precisam
dessa concentração e disciplina.
Mas aqui no Rio, diante de tantas competições, vitórias,
derrotas, contusões, de uma certa forma, mergulhamos no universo do esporte
quase sempre em busca de alegria e emoções. Mas os atletas, nas suas
entrevistas, parecem transmitir, por assim dizer, uma filosofia de vida. Claro
que daqui a pouco voltaremos ao nosso difícil cotidiano mas pode estar aí um
legado da Olimpíada; respirar bem, concentrar-se e trabalhar duro. Não
ganharemos medalhas, nem aplausos da torcida, mas em qualquer encrenca em que
estejamos metidos, respirar bem, concentrar-se e trabalhar duro, de alguma
forma, ajudam.
Quando a torcida grita fora de hora e mesmo quando os
locutores exageram no tom patriótico, emitem sinais de que não estamos inteiramente
aqui, como espectadores. Outro dia, vi um jogo Brasil e Japão. Havia uma
japonesa até mais baixa que a média, mas com um incrível talento. Lembrava o
que Messi é no futebol. Ela arrasou na partida. Mas só no terceiro tempo, o
locutor se deu conta: essa japonesinha está jogando muito — disse ele. O
locutor passou dois quartos do tempo vendo apenas o Brasil, falhas, acertos,
propondo táticas.
Toda essa intensidade emocional em torno dos atletas
brasileiros às vezes não deixa ver tantas japonesinhas passando, na forma de
espetaculares atletas. Ou mesmo nos impedem de refletir sobre a sensibilidade
diante da euforia e do barulho. A cara das velhinhas numa casa de chá da
Alemanha, nos anos 1980, quando entramos três brasileiros falando alto, me fez
sentir um extraterrestre. Talvez seja a mesma cara de um atirador na hora do
tiro, de um tenista pronto para sacar. Mas se para convivermos na diversidade
proposta pela festa da Olimpíada, o problema for apenas de ajustar o volume do
som, é um sinal de que ainda vale a pena viver num pesadelo de Donald Trump.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 14/08/2016

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