Tiago Dantas, Flávio Freire, O Globo
O candidato a prefeito de São Paulo pelo PRB, Celso
Russomanno, concorre pela segunda vez à gestão do município. Candidato de um
partido ligado aos evangélicos, Russomanno tenta fugir de polêmicas
relacionadas a parceiros investigados pela PF e se esquiva de assuntos que
possam causar rejeição.
Seu partido apoiou a candidatura de Dilma Rousseff em 2014,
mas, em março deste ano, diante da crise, saiu da base aliada. Desde 1994, o
sr. já mudou de partido quatro vezes. Isso não confunde o eleitor?
Como líder do PRB, fui o primeiro a levantar a bandeira de
que existia uma instabilidade política e de que não existia mais condição de
governabilidade. O PRB foi o primeiro a sair do governo. Nós é que demos início
a todo o processo que virou o impeachment. Com relação à troca de partido, isso
foi na juventude. Quero ficar no PRB e não sair mais.
O sr. foi aliado do deputado Paulo Maluf, procurado pela
Interpol. Isso atrapalha sua candidatura?
Por isso saí do PP. Esse foi o maior motivo de todos. Na
época em que me filei ao partido não tinha uma única denúncia contra Paulo
Maluf. Ele tinha saído da administração de São Paulo como um prefeito muito bem
avaliado.
O sr. é sócio em um bar do empresário Augusto Mendonça,
delator da Lava-Jato. O que acha de estar ligado a um investigado?
Eu o conheci na juventude, nem imaginava que pudesse estar
por trás de esquemas da Petrobras. Só tomei conhecimento quando os escândalos
estouraram. Como é que você prevê o futuro? Vai chegar para as pessoas e dizer:
“Olha, amigo, você me apresenta seus antecedentes?”. O que sei é que ele não
aguentava mais a extorsão e resolveu ser o primeiro a contar o que estava
acontecendo. Ele diz pra mim que está com a consciência tranquila.
O PRB é próximo à Igreja Universal, tem políticos pastores.
O sr. deve defender pautas mais conservadoras?
Não sou conservador, sou progressista. Acho que o Estado é
laico e não misturo religião com política. Sou um católico praticante.
Qual sua posição em relação ao casamento gay, à legalização
da maconha e à descriminalização do aborto?
Sou favorável à união estável (de pessoas do mesmo sexo),
firmada num cartório de títulos e documentos. Com relação ao casamento, sou
contra. Aborto, só numa situação em que a mulher foi vítima de estupro, como já
está na legislação. Quanto a drogas, sou contrário à liberação. Em nenhum país
do mundo isso deu certo.
Como o sr. avalia medidas do prefeito Fernando Haddad (PT),
como as ciclovias e Av. Paulista aberta?
Ciclovias são importantes como modal de transporte. Mas você
precisa montar uma infraestrutura para que as pessoas usem isso. Onde estão os
bicicletários? Em outros países do mundo, as ciclofaixas não estão nas ruas
principais, estão nas laterais. Em São Paulo se pintaram nas ruas principais
para mostrar uma política pública. Os comerciantes quebraram porque não têm
mais vaga de estacionamento nas ruas.
O sr. tem se posicionado contra a redução de velocidade nas
marginais. Segundo a prefeitura, essa medida reduziu em 37% os acidentes...
Essa estatística é falsa. A prefeitura está descaradamente
fazendo uma afirmação falsa, enganosa. Consultamos dados dos boletins de
ocorrência e de certificados de óbitos: o número de mortes no trânsito segue no
mesmo patamar. Vamos mexer na velocidade, com certeza. A minha proposta é
sempre trabalhar com estudo antes.
Na TV, o sr. prometeu suspender multas que não tiveram
recursos julgados. Como vai ser isso?
Hoje, 90% dos radares de São Paulo estão informatizados.
Você toma uma multa e vai para a internet na hora. Se você entra com recurso, o
DSV (Departamento de Operação do Sistema Viário) não dá retorno de que o
recurso foi ou não aprovado e mantém a multa. Se for lá, você vai ver que tem
pilhas e pilhas de documentos armazenados sem ninguém olhar. Agora, se você
reclamar que não teve retorno do recurso, eles dão uma carta sem nem verificar
nada para baixar seus pontos na carteira.
Qual o plano para a cracolândia, já que o sr. diz que o
usuário precisa de tratamento, mas quem estiver com droga será sumariamente
preso?
No meu governo ninguém vai traficar droga lá dentro. Vamos
fazer bloqueios policiais para aqueles que estiverem se deslocando em direção à
cracolândia. Quem quiser entrar e sair vai entrar e sair. Mas, se houver
suspeita, a polícia vai revistar. E, se tiver droga, a polícia vai apreender.
Se estiver traficando, vai ficar preso. E, se eu pegar policial metido com
crime, vai pra cadeia. Não tem meio honesto, nem meio filho nem meia mulher
grávida. Ou é ou não é.
Semana passada o sr. disse que o Uber é ilegal, dando a
entender que ia proibir o aplicativo. Depois, afirmou que vai regulamentar.
Afinal, num eventual governo seu, vai ter ou não Uber?
Uber é ilegal. Por quê? Para transporte coletivo de
passageiro, o carro tem que ter placa vermelha. Hoje os veículos do Uber que
estão na rua são novos. Mas daqui a quatro anos, cinco anos, eles serão novos?
Quem vai fiscalizar, fazer vistoria, quem vai garantir segurança dentro do
carro, se tem freio ou não? É o poder público. Vou regularizar o serviço.
O prefeito Haddad já fez uma regulamentação. Ela não serve?
Não. Ela fere a legislação federal.

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