Artigo de Fernando Gabeira
Antes mesmo de conhecer Ulysses Guimarães já sabia de sua
importância no processo de democratização, sua presença inspiradora no front
pacífico de luta contra a ditadura.
Tive a oportunidade de entrevistá-lo e até de participar de
reuniões com ele e Tancredo. Foi quando, junto com Paulo Sérgio Pinheiro, fomos
falar de política de direitos humanos para o governo que seria montado.
Ulysses e Tancredo de vez em quando cochilavam. Estavam
cansados de tantas reuniões. Ulysses vinha de uma intensa luta contra o governo
militar, enfrentando cães policiais nas ruas de Salvador.
Em seguida, veio a campanha das Diretas, a Constituinte, seu
papel no período foi decisivo.
Um homem que exerceu 11 mandatos sem fazer campanhas,
contando apenas com sua atuação em Brasília, era uma espécie em extinção. Não
só pelo longo período em que os eleitores confiaram nele, mas também pela
escolha de passar quase meio século naqueles corredores. Gostava de política,
acima de tudo. De política e de poire, uma aguardente de pera, feita para
delicados paladares.
Quando Ulysses Guimarães cumprimentou um corneteiro numa
cerimônia oficial foi um deus acuda. As pessoas pensaram, equivocadamente, que
a lucidez desaparecia.
Mesmo se assim fosse, a forma de caducar de Ulysses
Guimarães era das mais inofensivas e simpáticas. Quantos não ficam ranzinzas e
ressentidos?
Infelizmente, coube-me cobrir as buscas pelo helicóptero em
que Ulysses viajava quando desapareceu no mar. Trabalhava para a Rádio Gaúcha e
estava presente no momento em que acharam o corpo de Severo Gomes, de quem
gostava muito.
Refleti um pouco sobre aquela tragédia e concluí que Ulysses
tenha morrido mais por um ímpeto de juventude. Desafiar o mau tempo naquele dia
era um ato de coragem.
E pensei no quanto poderiam ter influenciado as questões
políticas, os assuntos urgentes que pesavam nas nas suas costas.
Líder estudantil, advogado, escritor, político, Ulysses
talvez tenha sido o último grande nome de uma tradição parlamentar brasileira
onde figuram personalidades, como a de Joaquim Nabuco.
A verdade é que alguma coisa também começava a decair com
intensidade: o próprio sistema político brasileiro. No palanque das diretas, ao
lado de Ulysses e outros da velha guarda, dois novos nomes emergiam: Collor e
Lula. Eles disputaram as eleições de 89 que Ulysses perdeu.
Hoje, Lula e Collor vivem um inferno astral. O que significa
também, ressalvadas as responsabilidades individuais, que alguma coisa está
errada no sistema que construímos a partir das Diretas.
Uma boa homenagem a Ulysses seria retomar o caminho perdido.
Havia muitas esperanças no processo político a partir das Diretas. E alguma
fraternidade numa trajetória que azedou nos últimos anos.
Leio na revista “Piauí”, em reportagem de Julia Dualibi, que
Ulysses ajudou ao pai de João Doria Junior a fugir do país, perseguido que era
da ditadura militar.
Apesar de ter trilhado caminhos diferentes na luta contra a
ditadura militar, compreendi muito rapidamente o papel dos que ficaram e
generosamente lideraram a travessia.
Ao responder a um repórter que atribuía a luta contra a
ditadura aos grupos armados, disse que estava equivocado. Os grupos armados
podem ter sido mais espetaculares e mais glorificados com a construção da
imagem de Dilma.
Quem derrubou a ditadura foi a sociedade, respondi, foi o
seu pai, sua mãe. Se o encontrasse acrescentaria: todos eles muito bem
representados por gente como Ulysses Guimarães.
Artigo publicado no Jornal O Globo em 06/10/2016

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