Artigo de Fernando Gabeira
Não tenho o hábito de comemorar derrota de adversários,
porque me lembro de que também já tive as minhas, aritmeticamente, humilhantes.
No entanto, o resultado das eleições é uma espécie de confirmação eleitoral do
fim de uma época.
Na verdade, o marco inaugural foi o impeachment, que muitos
insistem em dizer que foi produto de uma articulação conservadora e dos meios
de comunicação. Os defensores dessa tese têm uma nova dificuldade. Se tudo foi
mesmo manobra de uma elite reacionária, se estavam sendo punidos pelo bem que
fizeram, por que o povo não saiu em sua defesa nas urnas?
Sei que a resposta imediata é esta: a Operação Lava Jato, o
bombardeio da imprensa, tudo isso produz uma falsa consciência. Esse argumento
é uma armadilha. Nas cartilhas, exaltamos a sabedoria popular. Vitoriosos nas
urnas, é para ela que apontamos, a sabedoria popular. De repente, foram todos
hipnotizados pela propaganda?
Considero que estas eleições mostraram também uma grande
distância entre campanhas e eleitores. No entanto, o declínio geral do sistema
político não pode servir de refúgio para esconder a própria derrota.
Em certos momentos da História é difícil delimitar a
fronteira entre um movimento político e uma seita religiosa. Mesmo antes do
período eleitoral, tive uma intuição do que isso representa. Estava pedalando
pela Lagoa, no Rio de Janeiro, e uma jovem com fone no ouvido gritou:
“Golpista!”. Saía da natação, era uma bela manhã de setembro, sorri para ela.
Na verdade, estava a caminho de casa para ler o relatório da
Polícia Federal sobre as atividades de Antônio Palocci que envolvem os governos
do PT. Imaginava o que iria encontrar. Ao chegar em casa pensei nela, na moça
com dois fios saindo do ouvido. Se pudesse ler isso que li e tudo o que tenho lido,
talvez compreendesse o que é ser dirigido por uma quadrilha de políticos e
empreiteiros.
Num raciocínio de rua, pensei ao cruzar com operários da
Odebrecht que trabalham nas obras do metrô na Lagoa: esses são gentis, dizem
bom-dia.
Bobagem de manhã de setembro, mas uma intuição: enquanto se
encarar a queda de um governo que assaltou e arruinou o Brasil como um golpe de
Estado, será muito difícil deixar os limites da seita religiosa e voltar à
dimensão da vida política.
Há derrotas e derrotas. A mais desagradável é quando não
existe uma única voz sensata, dizendo a frase consoladora: o pior já passou.
Quem lê o que se escreve em Curitiba, não só os contos de
Dalton Trevisan, mas os relatórios da Lava Jato, percebe que muita água vai
rolar.
As eleições não mostraram apenas uma derrota do PT, mas
revelaram a agonia do sistema político. Certamente, as de 2018 serão ainda mais
decisivas para precipitar a mudança.
Esse é um dos debates que já correm por fora. Às vezes,
tocando em aspectos do problema, como o foro privilegiado, o número de
partidos; às vezes, discutindo uma opção mais ampla, como a mudança do próprio
regime.
Certamente, um novo eixo mais importante de debate se vai
travar entre as forças que apoiaram o impeachment. Não são homogêneas, têm
diferentes concepções.
A derrocada do populismo de esquerda não significa que não
possa surgir algo desse tipo no outro lado do espectro político. Os eleitos de
agora têm uma grande responsabilidade não somente com a aspereza do momento
econômico, mas também com sua própria trajetória.
Se o sistema político está em agonia, isso não significa que
será renovado a partir do zero. A História não começa nunca do zero. Um novo
sistema político carregará ainda muitos feridos das batalhas anteriores. E
talvez alguns mortos, por curto espaço de tempo.
Creio que o alto nível de abstenção e votos nulos possa
fortalecer esse debate. Embora a abstenção elevada seja um fenômeno
internacional.
No mesmo dias das eleições municipais no Brasil, a Colômbia
votou o referendo sobre o acordo de paz. Abstenção: 62%. Na Hungria, votou-se o
projeto europeu de cotas para receber imigrantes. O número de eleitores foi
inferior a 50%, invalidando a votação.
Cada lugar tem também suas causas específicas para que tanta
gente não se importe com algo que nos parece.
As eleições confirmaram que a qualidade dos políticos
representa muito no aumento do descrédito. Mesmo em países com voto facultativo
e, relativamente, altos níveis de abstenção, isso parece confirmar-se. Uma
campanha como a de Obama atraiu mais gente para as urnas nos EUA.
Depois das eleições começa a etapa em que a superação da
crise econômica entra para valer na agenda. Sempre haverá quem se coloque
contra todas as reformas e projete nelas todas as maldades do mundo.
Mas entre os que consideram as mudanças necessárias é
preciso haver a preocupação de que os mais vulneráveis não sejam atingidos. O
instrumento para atenuar o caminho é um nível de informação mais alto sobre
cada movimento.
Tenho a impressão de que o Ministério da Educação
compreendeu isso na reforma do ensino médio. Outros fatores contribuem para que
a discussão seja adequada ao momento. Várias vozes na sociedade já se
manifestam a respeito da reforma.
E, além disso, é um tema bastante debatido. Lembro-me de que
em 2008 Simon Schwartzman me alertou para o absurdo do ensino médio brasileiro.
Defendi a reforma e não me recordo de ninguém que defendesse o ensino médio tal
como existe hoje. Por que conter o avanço?
É o tipo do momento em que é preciso esquecer diferenças
partidárias. Os índices negativos estão aí para comprovar.
O Congresso pode discutir amplamente o tema, apesar da
forma, por medida provisória. Mesmo as críticas sobre a retirada da
obrigatoriedade da educação física devem ser consideradas – embora eu ache a
educação física facultativa mais eficaz que a obrigatória. E mais agradável
para o corpo.
Artigo publicado em 07/10/2016 no Estadão

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