Da ÉPOCA
Um executivo do grupo imobiliário JHSF, de São Paulo,
admitiu à Polícia Federal o pagamento de doação eleitoral e de R$ 1 milhão em
caixa dois para a campanha do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, em
troca do lobby que o petista fez quando era ministro do governo Dilma.
As revelações foram feitas por Humberto Polati, então
diretor de novos negócios da JHSF. O depoimento, obtido por ÉPOCA, é o mais
contundente até aqui revelado pela Operação Acrônimo. Polati foi
voluntariamente à PF, em Brasília, falar com a delegada do caso, um mês depois
de ter sido alvo de um mandado de busca e apreensão. Polati explica que ao
falar com Benedito de Oliveira Neto, o Bené (delator na Operação Acrônimo),
ouviu que “era chegada a hora de devolver o apoio dado por Fernando Pimentel no
projeto do aeroporto Catarina”. De
acordo com a investigação, Bené era uma espécie de operador de Pimentel.
A principal demanda da JHSF era viabilizar o aeroporto
Catarina, em São Roque, interior de São Paulo. De acordo com o executivo, a
função de Pimentel era garantir que o projeto não enfrentasse dificuldades
burocráticas na liberação do empreendimento. Humberto Polati relata encontros
pessoais com Pimentel na casa do petista, em Brasília, em um jantar num
restaurante português, também na capital, além de uma reunião na sede da JHSF.
Polati disse que José Auriemo Neto, herdeiro da JHSF,
acertou R$ 2,6 milhões em “contribuição” para Pimentel, em doação eleitoral –
ÉPOCA mapeou R$ 2,5 milhões para a direção nacional do PT. O mais grave,
contudo, veio em seguida. Era R$ 1 milhão em caixa dois, pagos diretamente ao
instituto de pesquisa Vox Populi. Segundo o dirigente da JHSF, todos os pedidos
eram levados a conhecimento de José Auriemo Neto, cujo apelido é Zeco. Ele
topou o pedido de Bené, disse Polati. O acerto foi que uma empresa que não
pertencesse à JHSF fizesse o pagamento. “Benedito sugeriu que a empresa JHSF
quitasse diretamente a dívida de campanha de Pimentel, referente a pesquisas
realizadas pela instituto Vox Populi. Zeco informou ao declarante que tal
dívida seria quitada por outra empresa, fora do grupo JHSF, mas de propriedade
de Zeco.”
Segundo Polati, o acerto foi feito na própria sede da JHSF,
numa reunião com Márcio Hiram, que falou em nome do Vox Populi. Polati foi
além, e disse que foi ele quem recebeu as notas fiscais e encaminhou para
pagamento. “Hiram avisou que havia uma dívida de campanha de Pimentel, em torno
de 1 milhão, e que tal dívida seria quitada por Zeco.”
O depoimento de Polati é fruto da sexta fase da Operação
Acrônimo, que justamente teve como alvos a JHSF e o Vox Populi. A origem da
investigação, como ÉPOCA revelou, é a delação de Bené. Segundo ele, Pimentel
fez lobby dentro do governo Dilma para garantir que o JHSF pudesse ter suas
demandas relacionadas ao aeroporto Catarina atendidas. E cobrou para isso.
Apesar das revelações, Pimentel só será levado a julgamento após o Supremo
Tribunal Federal decidir se ele pode ser alvo de uma decisão do Superior
Tribunal de Justiça. Antes, o Supremo deverá definir se a Assembleia Legislativa
de Minas Gerais tem de autorizar o julgamento na Justiça. Até lá, o governador
não pode ser julgado.
Procurado, o JHSF disse que “não comenta investigações em
andamento que estão sob segredo de Justiça”. “A empresa apoia e colabora com as
investigações.” O Vox Populi afirmou que não comentaria. Eugenio Pacelli,
advogado de Fernando Pimentel, disse que o governador não cuidava das doações
de campanha. “O valor doado foi feito oficialmente, ou seja, declarado. E foi
obtido mediante a insistência de Benedito. Pimentel jamais cuidou dessas
questões de doações de campanha.” Ele afirma que, como ministro, era papel de
Pimentel se reunir com empresários. “Sempre ouviu pedidos e variadas
solicitações. Algumas eram viáveis, outras não. Apenas isso.” Pacelli nega as
acusações de caixa dois. “O pagamento de dívida de campanha por outra empresa
não tem qualquer relação com as reuniões mencionadas no depoimento, que
ocorreram muito antes da campanha de Pimentel (um ano pelo menos). O então
ministro nunca fez solicitação alguma em seu benefício ou de sua campanha. Toda
a suposta atuação de Pimentel – nas reuniões mencionadas – ocorreu um ano antes
da campanha. Apenas Benedito pode responder por atos ilegais e realizados à
margem da lei e sem o conhecimento do então candidato.”

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