Da Revista Bula
Corre uma discussão sobre grafites, o que infelizmente
desviou a minha atenção de assuntos mais importantes, como o diplomata que vai
participar do BBB. Bem, nenhum homem é uma ilha, já se sabe, e por isso larguei
a “História da Arte”, de Gombrich, que lia pela terceira vez, e apliquei as
minhas células cinzentas ao caso.
Vejamos. Acho grafite algo medonho. Grafite feio, aliás, é
coisa mais comum no Brasil do que febre amarela e bócio. Naturalmente,
portanto, aplaudi a ordem do Dória de tratorar a coisa toda em São Paulo.
Também palpitei raivosamente sobre o tema no Facebook, vício que, aliás,
cultivo com carinho e papinhas.
Mas… Mas depois resolvi ir ao busílis e dei uma espiada em
livros sobre grafite nas livrarias (ou “graffiti” para aqueles que assim
escrevem e curiosamente criticam estrangeirismos nos outros). Primeira impressão:
os resumos todos mencionam certa luta de grafiteiros contra o capitalismo, luta
que nunca percebi mas que evidentemente legitima a luta política contrária.
Se a coisa é política, vence quem estiver no poder, ora.
Tudo vem, inclusive, embalado naquela linguagem etérea que se passa por patoá
de gente instruída — comprei, por exemplo, “Graffiti: Intervenção Urbana e
Arte”, de uma tal Anita Rink, e venho sofrendo desde então.
Estou tentando, mas tá difícil: além dos abomináveis Bauman
e Foucault, já encontrei — apenas na introdução! — “coletivos”, “novas formas
de ver”, “saberes”, “modos de apropriação”, “quebra na estética”, “um
estilhaçar”, “produção de subjetividade”, “narrativas que desestabilizam”,
“produzir reflexões”, “graffiti enquanto produção subjetiva”, “múltiplas
ressonâncias”, “criação de discursos”, “polifonias e dialogismo”, “arte
parietal”, “identidade não binária”… E pensar que já nos rimos do bacharelismo
do século 20! Eu até diria que o grafite está para a arte como a linguagem acadêmica
está para a língua portuguesa.
Adiante. O meu padrão estético não serve para decisões de
políticas públicas, imagino e lamento. (Se servir, Dória, fica a dica, como
dizem: pinte tudo com reproduções de El Greco!) Mas então nenhum gosto tampouco
serve e a imposição de grafites em muitos equipamentos urbanos — mas muitos
mesmo — não se justifica (alguém aceitaria pinturas de Romero Britto, que os
descoladinhos amam criticar, em todos os viadutos e pontes? Não, creio que
não).
E a institucionalização do grafite é tão imutável quanto o
cinza urbano: nossos olhos apenas veem a paleta cromática que é semelhante em
todo viaduto, em cada bairro, em todas as cidades.
Há muita monotonia na “arte” que só é arte porque se crê
engajada, “ocupadora” e é tema de teses de doutorado com títulos esdrúxulos do
tipo “Iconografias da metrópole: grafiteiros e pixadores representando o
contemporâneo” ou “Graffiti como meio: estética e utopia na paisagem urbana”
(ah, a “utopia” que povoa as teses acadêmicas e nada mais significa…).
E não é por nada não, mas aqueles grafites que aproveitam
árvores como “cabelo” de rostos humanos são o “incêndio na floresta” ou o
“palhaço chorando” da tal pós-modernidade: estão em todo lugar — e, tal qual a
classe média dos anos 1970 e 80, os que se acreditam moderninhos não percebem o
próprio gosto banal.
E então? Então não sei. Sei lá, grafitem umas pilastras,
deixem outras cinza. Que tal também algumas plantas? Mas não me torrem a
paciência com coisas do tipo “grafite é uma coisa, pichação é outra”, com
discussões estéticas quando tudo não passa de legitimação de desenhos
simplórios como luta política (a mesma estratégia que transformou o funk em
música que ocupa os nossos ouvidos sem pedir licença — se não sabem, “Bumbum
Granada” foi a música mais ouvida no Brasil em 2016).
Não me olhem com a superioridade moral de quem imagina que
uns tais Os Gêmeos sejam coisa refinada, não chorem falsas pitangas como se a
Catedral de Chartres tivesse se incendiado.
Sobretudo, entendam a contra-revolta (com hífen ainda?)
política, já que pensaram, estudaram e divulgaram o grafite como “revolta” e
“utopia” (curiosa luta contra o status quo que gosta de se legitimar com o
próprio status quo, esse bandidão maldoso, fazendo perguntas do tipo “mas você
não viu que o Fernandinho Pixel está expondo seus grafites no Louvre?”).
E sim, viver numa cidade com todos aqueles azuis e verdes
gosmentos explodindo nas nossas retinas é estar eternamente na nave de “Alien,
o oitavo passageiro”.
(Depois de já escritas estas brilhantes digressões,
disseram-me que um acordo tácito entre autoridades e grafiteiros impede que os
espaços públicos sejam todos tomados por pichações. É sério isso? Pois isso pra
mim é como permitir maconha em presídios para evitar rebeliões.)

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