Artigo de Fernando Gabeira
Viajaram todos no réveillon, fiquei só em casa, com uma
delicada missão: acalmar os quatro gatos durante os 17 minutos dos fogos em
Copacabana. No fim, deu certo. Vieram todos para a minha cama, redobrei a
atenção com uma delas que tem o hábito de fazer xixi fora do lugar, quando
contrariada. Nessa breve semana de férias, constatei que em 2018 vou trabalhar
mais ainda. São as circunstâncias. Minha pergunta é esta: que tipo de qualidade
necessito para encarar as novas tarefas?
Para fazer mais e melhor, destaco sempre uma delas, que nem
sempre me acompanha, na trajetória agitada: concentração. Costumo levar na
mochila um velho livro do sexto patriarca da Escola do Sul: Hui Neng, um sábio
budista. Volta e meia, bate na tecla da concentração. No seu universo, a
concentração é indispensável ao caminho espiritual. Mas nada impede que seja
também um instrumento valioso na nossa vida cotidiana.
Definidos objetivo e método, nada melhor que usar os
restantes momentos de férias para me dispersar. Ou, pelo menos, sentir a força
avassaladora das múltiplas atrações que disputam nossa atenção. Dentro de casa,
com livro, tevê e internet, é possível se perder completamente, em romances,
ensaios, biografias, perfis, curtas, debates inteligentes e bobagens
engraçadas.
Vi um perfil de Francis Bacon, cujos quadros sempre me
impressionaram e a quem só conhecia de um livro de entrevistas. Fiquei triste
com seu cotidiano pontilhado de crises, suicídio de um de seus amantes no
momento de sua grande consagração internacional: a exposição no Grand Palais, em
Paris. Lembrei-me de Van Gogh, pobre, dando sua própria orelha para uma
prostituta. É como se fosse uma lenda: não me comove tanto. E pensei: as dores
dos contemporâneos parecem ser as nossas dores.
Vi os episódios de série “Black mirror”, especialmente
“Arkangel” me fez divagar de novo. A mãe decide implantar um dispositivo no
cérebro da filha. Através dele, pode localizá-la e até mesmo ver e ouvir o que
a menina Sarah vê e ouve. Na sua telinha, a mãe acompanha a cena de sua filha
fazendo amor com o namorado. Ela vê o namorado de baixo, com os olhos de Sarah.
E ouve a menina dizer frases pornográficas. Numa cena anterior, Sarah aparecia
vendo no recreio da escola um filme pornográfico.
É apenas um detalhe em toda a história. No entanto, acionou
uma conexão na minha cabeça: andei lendo um pouco sobre um debate acerca do
tema nos EUA. Uma das críticas enfatizava que o imaginário sexual da juventude
estava sendo colonizado pelos roteiristas de filmes pornográficos. Isso
alterava o vocabulário e os próprios sentimentos. “Arkangel” me provoca a
voltar ao tema.
Passados os momentos de dispersão, ainda fico intrigado como
sou atraído por eles. Como se concentrar num mundo em que milhares de focos
disputam sua atenção?
Na estrada, às vezes com pobre conexão, isso é possível. O
chamado fluxo de trabalho é também uma âncora no presente. Ainda assim, os
fatos seguem acontecendo e não se pode descuidar deles. No entanto, é preciso
fazer uma espécie de barreira sanitária. Em outras palavras, o volume de
informações que nos orgulhamos de consumir e produzir também pode se voltar
contra nós, sobretudo em doses cavalares.
De volta ao futuro imediato, está diante de todos nós um ano
desafiador. Acompanhar as eleições, tentar extrair delas a maior mudança
possível nas relações entre sociedade e governo é uma tarefa inescapável. O
primeiro grande traço do ano eleitoral será desenhado no dia 24 de janeiro em
Porto Alegre: o julgamento do recurso de Lula pelo TR4. Teoricamente, o
Tribunal pode confirmar, rejeitar, reduzir ou ampliar a pena de Lula. Em
qualquer hipótese, tudo terá de ser equacionado de novo, a partir dessa
decisão.
Pelo que vi em Curitiba, quando Lula foi depor, as tensões
que surgem nesses momentos podem ser superadas com serenidade e algum
planejamento para evitar a violência.
Protestos, abaixo assinados, todos fazem parte do jogo
político. Mas servem mais como um consolo para Lula do que propriamente uma
visão apontando para o futuro. Em caso de confirmação da pena, como conduzir
uma candidatura que se choca com a Lei da Ficha Limpa?
Não posso prever em detalhes esse primeiro grande momento do
ano eleitoral. Na verdade, ainda o encaro como um incidente do passado. Lula
resolveu se candidatar para fugir da Lava-Jato pelos melífluos caminhos da
política.
Baixando essa poeira de janeiro, será possível discutir um
pouco mais amplamente uma agenda para a mudança. Entre o destino de um
condenado e as tarefas de reconstrução do país há uma considerável mudança de
foco.
Os anos pertencem a uma teia maior do tempo. Nunca são
totalmente novos. Como todos nós, trazem consigo a carga do passado. Até os
motins nas cadeias são planejados na véspera do réveillon. Esperemos pois, com
paciência, 2018 surgir nas brumas de janeiro.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 07/01/2018

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