Os jornalistas escrevem sobre lendas, criam lendas e têm
suas próprias lendas. Nas redações, e acho que hoje ainda é assim, contam
histórias que passam de gerações para gerações. A maioria faz parte de uma
época que os saudosistas tacham de fase romântica do jornalismo, quando o
profissionalismo era incipiente.
Uma dessas lendas, que normalmente eram contadas nos bares
após o fechamento dos jornais, dá conta de um velho redator de Teresina. Fim de
tarde, já na hora de mandar o jornal para a gráfica, chega um telegrama com a
urgência destacada. É, algumas notícias chegavam por telegrama, principalmente
as internacionais. O comunicado urgente trazia a notícia da morte de Che
Guevara. O velho redator era um revolucionário frustrado. Obrigado à lida
diária e à quantidade de bocas para alimentar, nunca pode correr atrás da
revolução. Mas tinha o argentino como líder inconteste, maior que Fidel. E, por
causa de uma dessas sinucas da vida, cabia a ele escrever o obituário do
guerrilheiro.
Profissional, tentaria manter o equilíbrio no texto,
poupando o leitor de adjetivos de louvação. Mas com uma coisa não se conformava
e nem colocaria no texto: um líder da dimensão de Che Guevara não poderia ter
sido morto pelo maltrapilho exército boliviano. Não, isso não. Com o poder de
finalizar o jornal, o velho redator resolveu reescrever a história. Discorreu
sobre a vida de Che, contou sua formação em medicina, a passagem frustrada pela
África, a vitoriosa experiência em Cuba e a obstinação pela luta permanente.
Destacou ainda que Guevara era asmático e, com isso, achou a solução. Era a
saída que precisava para não macular a aura de santo, nem tirar o simbolismo do
herói dele. E mandou ver. Che Guevara morreu nas montanhas da Bolívia depois de
uma crise de asma. E concluiu afirmando então que não era recomendável para os
asmáticos a prática da guerrilha. Pronto, estava salva a honra do herói.
Eu me lembrei dessa lenda depois de ler exaustivas
narrativas de guerrilheiros do FB que propagam um golpe de Estado, um regime de
exceção e uma suposta ditadura. Ora, os jovens têm a felicidade de não saber na
carne o que é uma ditadura. A ignorância pode levar a equívocos. Mas os mais
velhos, principalmente os que têm 60 anos ou mais, não podem propagar,
compartilhar ou espalhar esse papo furado de que vivemos um regime de exceção.
Isso é desonesto, um estelionato intelectual. O pior é que alguns desses
propagadores sofreram mesmo com a repressão e sabem a diferença. Não há como
descrever totalmente a crueldade de uma ditadura, mas a palavra que melhor
define é horror.
Não foi a asma que matou o Che. Cuidado com os redatores
velhacos.
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