CIÊNCIA FAJUTA E PROPAGANDA ENGANOSA: ENTENDA TUDO O QUE
ESTÁ ERRADO NO PL DO VENENO
SEMANA PASSADA, um projeto de lei que
flexibiliza o uso de agrotóxicos no país foi aprovado em uma comissão especial
da Câmara criada para tratar do tema. Após debates intensos, o Projeto de Lei
(PL) nº 6.299/2002, conhecido como PL do Veneno, foi aprovado com uma votação
avassaladora: 18 a 9. O projeto ainda passará pela apreciação do Plenário da
Câmara e, em seguida, voltará para o Senado. Com a bancada ruralista aliada às
bancadas da Bíblia e da bala, a expectativa é de que o projeto seja aprovado
com tranquilidade.
O projeto é de 2002 e foi proposto pelo então senador Blairo
Maggi, que hoje é o ministro da Agricultura. Não é difícil desconfiar de um
projeto cujo autor ostenta o título de Barão da Soja e é considerado um dos
maiores desmatadores da Amazônia. Maggi e sua turma querem facilitar a
aprovação e venda de agrotóxicos, além de afrouxar a fiscalização.
Usando eufemismos como “desburocratizar” e “modernizar”
processos, o projeto de lei impedirá a continuação do trabalho de entidades
fiscalizadoras e excluirá os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente da análise
e registro dos agrotóxicos, deixando essa tarefa exclusivamente para o
ministério comandado por Maggi. Licenças para o uso de novos venenos poderão
ser aprovadas sem passar pelos testes que analisam o impacto no meio ambiente e
na saúde da população.
De fato, o registro de agrotóxicos no Brasil é bem mais
lento que em outros países. Enquanto aqui leva-se de 3 a 10 anos em média, os
EUA e alguns países europeus conseguem aprovar em até 4 anos. Segundo a Anvisa e
o Ibama, a demora se deve à falta de estrutura e escassez de recursos para
a qualificação dos profissionais. Em vez de cobrar maior investimento do
governo nesses órgãos para agilizar os processos de registro, a bancada
ruralista se mobiliza para alterar a lei. Segue-se a mesma lógica da
privatização de estatais: primeiro sucateia, depois se livra delas usando a
justificativa da ineficiência.
Na prática, o PL afrouxa as regras em um país que já é
considerado o paraíso desses venenos. A legislação brasileira já é altamente permissivasobre o
limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. Um estudo do Laboratório
de Geografia Agrária da USP revela um abismo entre os níveis de resíduos
permitidos na Europa e no Brasil. Aqui, a contaminação da água pelo herbicida
glifosato, por exemplo, tem um limite 5 mil vezes superior ao que é permitido
no continente europeu. O país ostenta o título de maior importador e consumidor
de agrotóxicos do planeta. Um levantamento da Reuters revelou que grandes fabricantes internacionais
vendem para o Brasil agrotóxicos que são proibidos em seus países por oferecer
riscos à saúde e ao meio ambiente. Substâncias rotuladas como “altamente
tóxicas” por órgãos reguladores dos EUA, por exemplo, já são vendidas
normalmente no mercado brasileiro. Das 50 principais fórmulas de agrotóxicos
usadas no Brasil, 22 são proibidas na União Europeia.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência divulgou
um manifesto, assinado por mais de 20 sociedades científicas,
alertando para os “efeitos potencialmente catastróficos” da aprovação da nova
lei para a saúde pública. No mês passado, a ONU enviou uma carta ao governo brasileiro mostrando
preocupação com o PL e afirmando que ele coloca em risco uma série de direitos
humanos.
De um lado do debate estão, além da comunidade científica,
os partidos de oposição, ambientalistas, o Ministério Público Federal, a Fiocruz, órgãos do governo como o Inca, o Ibama e a Anvisa e centenas de entidades ligadas à saúde e ao
meio ambiente. Do outro, a base aliada do governo, a bancada ruralista, o lobby
dos produtores de agrotóxicos e o MBL. Enquanto o primeiro grupo se baseia no
consenso da comunidade científica de que o uso indiscriminado de agrotóxicos é
prejudicial à sociedade, o segundo, movido por interesses políticos e
financeiros, trabalha com a desinformação.
Na comissão especial da Câmara, onde a bancada ruralista
domina com ampla maioria, todos os dados científicos apresentados pelos
opositores do PL e notas técnicas de órgãos de controle estão sendo ignorados.
O lobby dos agrotóxicos
O documentário “O mercado da
dúvida”, baseado em livro de mesmo nome, mostra através de entrevistas com
pesquisadores e historiadores científicos como se fabricam as narrativas que
colocam em xeque consensos científicos. Elas costumam ser estimuladas e
financiadas por quem têm a perder com algumas conclusões da ciência.
Disseminar a dúvida na sociedade em relação às pesquisas que
associavam o cigarro ao câncer, por exemplo, fazia parte da estratégia adotada
pela indústria do tabaco nos EUA que, durante décadas, confundiu a população
por meio de intensas campanhas na mídia. Lobistas contratados por essa
indústria se aproveitavam da polarização ideológica na sociedade americana para
fabricar teorias conspiratórias, culpando não a ciência pela demonização do
cigarro, mas as ideologias de esquerda que pretendiam sabotar o capitalismo.
O modus operandi foi bem sucedido e se repetiu em outros temas
importantes como o aquecimento global. A indústria do petróleo financia
diversas associações de fachada e cientistas mercenários para colocar em dúvida
o aquecimento da Terra, um dado que é consenso absoluto entre cientistas da
área. O mesmo aconteceu com os agrotóxicos nos EUA e, agora com mais força, no
Brasil.
Em depoimento para a série “Viva Sem Veneno”, a advogada
da ONG Terra de Direitos, Naiara Bittencourt, afirma que não é à toa que o
Brasil se tornou campeão no consumo de agrotóxicos. “Isso deriva de uma
ofensiva estruturada do agronegócio, com muito poder e dinheiro envolvidos. O
lobby do agronegócio se espraia nos 4 poderes. No Legislativo, através da
Frente Parlamentar da Agropecuária, que ocupa 40% do congresso nacional e que,
aliada a outras bancadas, consegue aprovar suas propostas com facilidade. No
Executivo, através da ocupação de ministérios emblemáticos como Agricultura,
Casa Civil e Justiça. No Judiciário, através da captura de juízes por meio de
patrocínio de eventos, festas e encontros de magistrados brasileiros. A
Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) é um interlocutor prioritário para
os magistrados na temática agrária, com forte poder de influência nas decisões.
Muitos juízes são proprietários de terra e ruralistas. Há também o lobby na
grande mídia.”
O publicitário Nizan Guanaes sempre foi um defensor dos alimentos orgânicos e chegou a escrever
para a Folha de S. Paulo frases como “a comida do futuro é orgânica. (…) As
pessoas estão cada vez mais preocupadas em comer e em dormir livres de
substâncias químicas. (…) A Califórnia não é apenas o centro de tecnologia do
mundo. Se você for a San Francisco, verá como a alimentação orgânica está
tomando a cidade.”
Mas as coisas mudaram, e o publicitário se converteu ao
agronegócio. Recentemente ele foi contratado pela CNA para criar uma nova estratégia
de comunicação e dar uma repaginada na imagem dos agrotóxicos. “Só chamar
agrotóxico já mostra que o setor se comunica mal. Meu papel é fazer o setor se
comunicar melhor, nem canonização nem satanização”, afirmou o publicitário. Uma
das propostas da lei é justamente alterar a nomenclatura para “defensivos
fitossanitários” e, assim, escamotear a toxicidade dos venenos agrícolas.
Um relatório publicado pela ONU no ano passado trouxe
dados confirmando o efeito devastador dos pesticidas na saúde do homem e no
meio ambiente. O documento afirma também que as corporações produtoras de
agrotóxicos trabalham com a desinformação, já que “negam sistematicamente” os
danos causados e suas “estratégias de marketing antiéticas continuam iguais”. O
relatório conclui também que é possível alimentar as 9,6 bilhões de pessoas que
vão habitar a terra em 2050 sem o uso dos agrotóxicos, derrubando assim um dos
principais argumentos do lobby da indústria.
Em colunas em defesa do PL do Veneno, o jornalista Leandro Narloch e o tucano representante do
agronegócio Xico Graziano citaram como fonte dois pesquisadores
que vão na contramão do que aponta a comunidade científica: Edivaldo Velini e
Caio Carbonari, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
Ambos defendem o PL e afirmam que a presença de agrotóxicos nos alimentos têm
diminuído ao longo do tempo. Grande parte das pesquisas de Velini sobre
agrotóxicos foram financiadas por grandes indústrias de agrotóxicos e de
sementes transgênicas, como a Arysta Lifescience, a Basf e a Syngenta. Mesmo
com tantas conexões com a indústria, o pesquisador não vê conflito de interesses em ser integrante da CTNBio, órgão
que regulamenta a política de biossegurança no país e do qual já foi
presidente.
O outro pesquisador citado, Caio Carbonari, foi orientando
de Velini e também participou com ele de algumas pesquisas
patrocinadas pela indústria dos agrotóxicos. Os dois são figurinhas
carimbadas em congressos e eventos organizados pelo agronegócio.
Já o MBL vem cumprindo com louvor o papel de assessoria de
comunicação da bancada ruralista. Nas redes sociais, o grupo tem ignorado a
posição da comunidade científica e disseminado a ideia de que os agrotóxicos
existem para salvar nossas vidas. Eles têm atuado com afinco na criação de
vídeos defendendo o PL e memes ridicularizando quem se opõe, sempre tratando a
questão fundamentalmente como uma disputa entre a esquerda (representada por
eles como hippies e artistas idiotas) e a direita (representada por quem quer
trabalhar, produzir e movimentar o PIB do país).
Em vídeo publicado em janeiro, o grupo que nutre ojeriza
às agências de checagem de dados apresentou seus próprios dados para defender o
uso dos venenos agrícolas. Kim Kataguiri sustentou sua argumentação com uma
única fonte: o livro “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas
Vital, um jornalista que presta serviços para empresas ligadas ao
agronegócio.
O lobby dos venenos agrícolas cresce no país à medida em que
o mercado internacional passa a ser cada vez mais regulado e restritivo.
Enquanto a tendência mundial é trabalhar para reduzir e proibir uso de alguns
agrotóxicos, como na Europa, EUA e até na China, o Brasil acelera fundo na
direção do obscurantismo. A nova lei irá impulsionar ainda mais a farra no uso
dessas substâncias e reforçará a fama brasileira de paraíso dos agrotóxicos.

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