A majestade do “Fausto”, de Goethe, obstrui a fruição do
esplêndido poema dramático alemão. Acrescente-se à fama fáustica um século e
tanto de teses emboloradas, de empoladas notas de pé de página. Elas mais
envelhecem que dão viço ao doutor que vendeu a alma a Mefistófeles.
Esse argumento foi defendido por Brecht, em 1954, num estudo
ao qual deu o título certeiro de “A Intimidação Através do Classicismo”.
Algo assim ocorre hoje no Brasil. Aqui, um bando de
brutamontes macambúzios só ejacula ao maltratar Marx, do qual não leu uma parca
página.
Mas até o capitão sabe que não dá para associar o PT ao
pensamento radical. Desde o berço o partido prescindiu do marxismo,
hostilizando-o com zelo pelego. Seu norte foi a reforma —nhô sim de chapéu na
mão e cabeça baixa.
Inspirador do socialismo, Marx saiu de moda no mundo todo.
Está ausente das cogitações das castas dirigentes de Pequim, Pyongyang e Havana
—para não falar das paródias bolivariana e sandinista. Por que então manter
Marx na condição de espectro ameaçador? “Buuuuu”, ainda?
Como o status quo quer esmerar a espoliação, Marx serve para
satanizar a justiça e a igualdade. Serve para desqualificar a razão radical. A
“manu militari” é hostil a raciocínios. Viceja no mangue das teorias
conspiratórias. Mito é palavra que lhe cabe como luva.
É escutar o capitão dois minutos para perceber seu desprezo
pela argumentação. Seus idólatras terão de incrementar a exploração por meio da
força, e não de ideias bem concatenadas. Daí sua cruzada contra Marx, que
Brecht batizaria de “A Intimidação Através da Ignorância”.
A intimidação, porém, implica atentar contra a ciência, a
filosofia, a arte, a cultura e a própria noção de estudo. A cultura, no seu
sentido clássico, está sendo dinamitada dia e noite pelos escribas e pornógrafos
da bolsonaríada.
As figuras de linguagem preferidas pelos ideólogos da
baixaria são a hipérbole, o eufemismo e o paradoxo.
Elas são encaradas como petardos retóricos na guerra para
excomungar os discordantes. O objetivo é ofendê-los e expulsá-los do debate de
alternativas. Só a fé obtusa salva.
Bem entendido: a fé do capitão e de seus cortesãos em si
mesmos. O marxismo contra o qual deblateram ficou incapaz de galvanizar os
trabalhadores de todo o mundo. Ao xingá-lo, os estafetas da nova ordem dizem na
verdade que não se deve mudar o mundo. É preciso se submeter.
Marx foi um grande pensador e escritor. Assim ele é
reconhecido mundo afora. Mesmo distante da subversão direta, tem muito a dizer
às pessoas de aqui e agora. Denegri-lo tem tanto sentido quanto ofender
Spinoza. Estudá-lo, em contrapartida, amplia a imaginação e o mundo.
Nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, que escreveu em
1844, mas que foram publicados no século seguinte, Marx analisa versos do
“Fausto”, de Goethe. Neles, Mefistófeles diz que o homem com dinheiro para
comprar seis cavalos adquire a força deles: passa a ter 24 pernas.
Para o demônio, a individualidade vale menos que a riqueza.
O sujeito é horrível, mas a força repelente da feiura não impede que atraia as
mulheres mais belas —caso tenha dinheiro em abundância. Ele pode ser coxo, mas
a riqueza lhe dá 24 patas. Ela anula as incapacidades individuais.
Marx, que tinha 26 anos, escreveu que o dinheiro isenta o
milionário do trabalho de ser desonesto. E conclui: o dinheiro é o vínculo do
homem com a sociedade e a natureza. Vínculo de todos os vínculos, ele tanto
pode unir como apartar as pessoas.
Noutro manuscrito, “Grundrisse”, de 1857, Marx dá um passo
adiante na conceituação da riqueza —o ter dinheiro à farta. Observa que, na
Antiguidade, a riqueza nunca foi o objetivo da produção. O seu objetivo era a
melhoria dos cidadãos e da cidade.
Só no mundo moderno a riqueza se tornou um objetivo em si
—mas da classe proprietária. Mesmo assim, Marx defende a riqueza da era
moderna. Ela significa “a universalidade das necessidades, capacidades,
fruições e forças produtivas dos indivíduos”.
Ou seja: “quando despojada da sua estreita forma burguesa”
—a propriedade privada—, a riqueza é o alfa e o ômega da sociedade, o produto
do esforço coletivo racional, que condensa o trabalho criativo de gerações.
Abdicar desse objetivo coletivo racional, para delegá-lo às
forças irracionais da economia e da política, é um contrassenso regressivo. A
abdicação, contudo, é moeda corrente nas sociedades que produzem aquém do
necessário à sua dignidade e iluminação. É o que o jovem Marx ensina.
Mario Sergio Conti é jornalista, é autor de “Notícias do
Planalto”.

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