Ao completar os primeiros vinte dias, o governo Bolsonaro começa
a revelar os traços básicos de seu perfil. Com as movimentações iniciais dos 22
ministros e as nomeações de boa parte dos ocupantes do segundo e terceiro
escalões, tornou-se possível identificar algumas marcas do novo governo. É um
período curto para tirar conclusões definitivas, mas já dá para ter ao menos
uma ideia do que pode vir por aí.
Em meio a declarações desencontradas e recuos do presidente e de
seus ministros em anúncios de medidas oficiais, ficou clara a existência de uma
babel ideológica no governo, que gerou diversos conflitos desde a posse, em 1.º
de janeiro.
Aparentemente, as divergências até agora não deixaram
feridas profundas. Mas podem ameaçar a unidade da grande frente formada para
eleger Bolsonaro, refletida no novo Ministério, se os conflitos aumentarem, em
vez de diminuírem, nas próximas semanas e meses.
A frente inclui seis grandes grupos, com pesos diferentes na
administração e influência distinta junto ao presidente – os militares, os
liberais, os lavajatistas, os políticos, os evangélicos e os ideólogos e
olavistas, que seguem as teorias do pensador e escritor Olavo
de Carvalho (veja o quadro).
Em paralelo, com forte influência sobre as decisões do
presidente e uma identidade maior com militares e olavistas, opera o núcleo
familiar, composto pelos três filhos de Bolsonaro: Flávio,
senador eleito pelo Rio de Janeiro, suspeito de envolvimento em operações irregulares com
funcionários, Eduardo,
deputado federal por São Paulo e talvez o mais influente da troika,
e Carlos, vereador no Rio, todos integrantes do PSL, o mesmo
partido do pai.
Mosaico ideológico. Muitas vezes, esses grupos têm
ideias e visões divergentes e contraditórias sobre o País e o mundo. Não por
acaso alguns analistas estão chamando esse processo de “balcanização”, em
referência à divisão de poder entre grupos conflitantes ocorrida na Península
Balcânica, localizada na região sudeste da Europa, entre o início dos séculos
19 e 20.
De certa forma, o mosaico ideológico montado pelo novo
governo também existia nas gestões do PT e mesmo do PSDB. Agora, porém, a fragmentação parece mais acentuada,
talvez porque os grupos só tenham se aproximado para valer após as eleições e,
em alguns casos, só depois da posse.
Um exemplo que ilustra com perfeição o “cabo de guerra”
travado dentro do governo é a disputa pela Agência Brasileira de Promoção de
Exportações e Investimentos (Apex), entre a ala liberal, liderada pelo ministro
da Economia, Paulo Guedes, e a ala dos olavistas, representada pelo
ministro das Relações Exteriores, Ernesto
Araújo.
Guedes contava com a transferência da Apex para sua órbita,
com o objetivo de dinamizá-la e transformá-la numa ferramenta poderosa de
negócios no exterior. Mas o órgão, que já foi ligado ao extinto Ministério do
Desenvolvimento, Comércio Exterior e Serviços, acabou ficando mesmo com o
Itamaraty, onde já estava no governo
Temer. A decisão foi consumada apesar dos sinais emitidos por Araújo de que
poderá levar em conta aspectos ideológicos na atuação da Apex, em prejuízo de
uma filosofia mais pragmática do comércio internacional.
Pivô das divergências. Para completar o quadro, Araújo
ainda nomeou dois diretores da Apex ligados a Eduardo Bolsonaro – a
empresária Letícia Catelani e o advogado Márcio Coimbra, ex-assessor
parlamentar do Senado, que acompanhou o filho do presidente em sua recente
viagem aos Estados Unidos. Letícia teria sido responsável pela tumultuada saída do ex-presidente da empresa, Alex
Carreiro, substituído pelo diplomata Mário Vilalva apenas uma semana depois de
nomeado.
Numa outra frente, o grupo dos lavajatistas, capitaneado
pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio
Moro, levou a pior num conflito com a ala dos políticos, à qual pertence o
ministro-chefe da Casa Civil, Onyx
Lorenzoni, talvez o grande pivô das divergências no governo desde a eleição
de Bolsonaro. Moro, a quem a Fundação Nacional do Índio (Funai) era ligada até
ser transferida para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos, havia determinado a exoneração de Azelene Inácio, diretora de Proteção
Territorial do órgão. Mas uma semana depois Onyx ainda não havia levado adiante
a decisão e publicado o desligamento de Azelene no Diário Oficial da
União.
Nas próximas semanas, novas disputas do gênero estão no
radar. No início de fevereiro, com o provável encaminhamento do projeto de reforma da Previdência ao
Congresso, tudo indica que as tensões vão se acentuar entre a ala dos
militares, que defende em público a manutenção dos privilégios da categoria –
com a exceção do vice-presidente, o general Hamilton Mourão –, e a dos
liberais, que apoia uma mudança ampla, englobando o pessoal da caserna.
O próprio presidente terá de tomar partido nesta questão e
pelo que se pode deduzir do que tem dito a tendência é ele cerrar fileira com
os militares e a ala política representada por Onyx, também defensor de uma
reforma mais branda, mesmo com o déficit da Previdência chegando à
estratosfera e comprometendo o equilíbrio das contas públicas. “A melhor
reforma é a que passa na Câmara e no Senado”, disse Bolsonaro, sugerindo que
está pouco inclinado a apresentar um projeto mais duro para resolver o problema
de vez, como propõe a ala liberal.
Vantagem militar. A avaliação da força dos grupos não
pode ser feita apenas com base no número de ministérios conquistados por cada um. Ela tem de
incluir seus tentáculos nos escalões inferiores em todas as pastas. Depende
também do orçamento total controlado por cada ala, do impacto das pastas na
economia e do grau de prestígio de seus representantes junto ao presidente e a
seus filhos, cuja participação ativa no governo preocupa até os aliados mais
próximos.
Dito isso e levando em conta apenas o primeiro escalão,
pode-se dizer que os grupos militar e político, à frente de sete ministérios
cada um, são os que concentram a maior fatia de poder no governo. Depois deles,
vêm as alas liberal, com três ministérios, incluindo o Banco
Central, lavajatista e olavista, com dois cada, e evangélica, com apenas um
ministério.
Quando se consideram também as nomeações de segundo escalão
claramente identificadas com uma das alas, o grupo militar leva larga vantagem,
com nada menos que 32 representantes, espalhados por 13 ministérios, seguido
pelos núcleos político, com 16 integrantes, liberal, com 13, olavista, com
12, lavajatista, com 10, e evangélico, com 3.
Cartilha. Conhecido até pouco tempo atrás por um
contingente restrito de iniciados e seguidores, entre eles Bolsonaro e seus
filhos, Olavo de Carvalho ganhou os holofotes e conquistou
trincheiras importantes na nova gestão. “Vivi para ver um filósofo indicar mais
gente para o governo que o MDB”, afirmou na semana passada o cineasta Josias
Teófilo, diretor do filme O Jardim das Aflições, sobre a vida e a
obra de Olavo. No primeiro escalão, o MDB amealhou apenas o Ministério da Cidadania, ocupado
pelo deputado federal gaúcho Osmar Terra.
Além de ter indicado os ministros Ernesto Araújo, de
Relações Exteriores, e Ricardo
Velez Rodriguez, da Educação, duas áreas consideradas essenciais pelos seus
pupilos para determinar o sucesso do governo, Olavo também é o “padrinho”
de Filipe Garcia Martins Pereira, assessor internacional de
Bolsonaro, instalado no Palácio do Planalto, de Carlos Nadalim, secretário de
Alfabetização do Ministério da Educação, e de Adolfo Sachsida, secretário
de Política Econômica do Ministério da Economia, um território dominado por
liberais que não rezam pela sua cartilha.
Como se pode observar, na babel ideológica do
governo Bolsonaro, parece complicado os diferentes grupos falarem a mesma
língua. Só o tempo vai dizer se o presidente conseguirá administrar as
divergências entre as alas e se ele vai enfrentar o problema sem causar grandes
solavancos.
Para manter unida a frente heterogênea que lhe dá
suporte, Bolsonaro terá de mostrar que está preparado para atuar como um
magistrado nos conflitos.
Divisor de águas. Segundo relatos de quem já teve
contato com Bolsonaro e por tudo o que se pôde observar desde a campanha, ele
tende a mudar de opinião conforme a visão de seu interlocutor sobre uma questão
qualquer. Ele também já mostrou que costuma falar sobre temas que não domina, antes de formar
uma convicção a respeito do melhor caminho a seguir. Assim, acaba dando a
impressão de ser uma espécie de biruta, que oscila de acordo com a direção do
vento, gerando insegurança não só no mundo dos negócios, mas para todos os
brasileiros que acompanham seus movimentos e têm de tomar decisões para si
mesmos e suas famílias.
Como diz a expressão criada pelo poeta inglês John
Donne (1572-1631) e imortalizada pelo escritor americano Ernest
Hemingway (1899-1961), a grande questão é saber por quem dobrarão os sinos
de Bolsonaro nos próximos meses e anos.
Aparentemente, nas primeiras semanas de governo, ele se
curvou às alas política, militar e olavista nas questões que
envolviam a economia, em detrimento da ala liberal, encarregada de
conduzir as reformas de que o Brasil precisa para voltar a crescer.
Bolsonaro também demonstrou enorme interesse nas questões
de costumes e educacionais, caras às alas olavista e evangélica, e nas de
política externa, uma espécie de fetiche para os seguidores de Olavo. Sua
postura em relação à reforma da Previdência pode ser um “divisor de águas” ou
confirmar as previsões mais sombrias. Logo mais, se o envio da reforma
previdenciária ao Congresso no início de fevereiro se confirmar, a
gente saberá a resposta.

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