É incrível como Chico Mendes, na sua simplicidade, teve a
sabedoria e a visão pioneira para configurar grandes discussões da humanidade.
Chico significou o conceito de socioambientalismo, ao integrar na prática
proteção do meio ambiente com justiça social, e economia com ecologia. Chico
era um defensor do diálogo, ouvia a todos, valorizava a informação e unia a
ciência aos conhecimentos tradicionais das comunidades. Não se afastava dos
companheiros da floresta, com quem mantinha uma relação não apenas de
fraternidade mas também de respeito à democracia no debate e nas decisões.
Mesmo sabendo das inúmeras ameaças de morte que sofria, negava os pedidos
insistentes de pessoas próximas para se refugiar fora de Xapuri, nem que fosse
apenas por um tempo. Sempre alegava que não poderia abandonar seus
companheiros, seu compromisso era inarredável, sabia que sua causa se
encontrava ali.
- Legado
do ambientalista Chico Mendes, morto há 30 anos, mantém-se vital para a
sobrevivência da Amazônia
- Morte
de Chico Mendes, há 30 anos, despertou no mundo a consciência ambiental
Lembro do empate – uma forma de resistência organizada e
pacífica de homens, mulheres, idosos e crianças dos seringais contra os
desmatamentos no Acre – que fizemos na Fazenda Bordon. Quando nos aproximamos
do local, havia uma proteção da Polícia Militar para que os peões pudessem
derrubar as árvores impunemente. Logo que chegamos, os policiais vieram em
nossa direção para impedir nossa entrada. Chico teve a ideia de cantarmos o
Hino Nacional. Nos demos as mãos e começamos a cantar. Os soldados no mesmo
instante pararam e ficaram esperando. Quando terminou o Hino, os policiais
começaram a caminhar de novo, então Chico falou para darmos as mãos de novo e
rezarmos um Pai Nosso. Pegamos na mão dos PMs, que tiveram que parar novamente,
e aí pronto, não tiveram mais o que fazer, nós já tínhamos entrado na área que
estava sendo desmatada. Mesmo em situações acirradas de conflito, Chico não
abria mão dos caminhos da luta política não-violenta.
Permanece viva em minha memória a imagem desse grande amigo,
irmão, mentor e companheiro de luta, com projetos de desenvolvimento
comunitário empunhados nas mãos, andando nos corredores das instituições,
pedindo apoio de cientistas, ambientalistas, sindicatos, partidos políticos,
órgãos de governo. Sua vida foi uma tradução viva do que o filósofo francês
Jean-Paul Sartre disse: não somos o resultado daquilo que o passado fez
conosco, mas do que fazemos com o nosso passado.
Os avanços que obtivemos na agenda ambiental no combate ao
desmatamento, no aprimoramento da legislação e das estruturas de governança, na
criação de unidades de conservação, no papel de destaque que o Brasil alcançou
nas negociações multilaterais, na valorização dos povos indígenas, comunidades
quilombolas e tradicionais, assim como vários outros, são desdobramentos da
luta que Chico Mendes iniciou.
Conheci o Chico quando tinha 17 anos, e esse encontro mudou
a minha vida. Nessa época, eu sonhava em ser freira e vivia num convento em Rio
Branco, no Acre. Um dia, incentivada por um cartaz afixado na igreja, decidi
fazer um curso de liderança sindical rural, ministrado pelo Chico e pelo
teólogo Clodovis Boff. Depois disso, comecei a compreender que a minha fé não
era para ficar encerrada em quatro paredes. Os ensinamentos de Chico Mendes tem
sido, desde aquele momento, lições de vida, que valem ainda mais agora, quando
há uma negação sistemática do que está dizendo a ciência, um tratamento
inadequado às populações tradicionais e uma perda da capacidade de diálogo
entre diferentes.
Muitas das coisas que eu faço e como me comporto, acho que
aprendi com ele, sem nem saber que estava aprendendo e ele talvez nem sabendo
que estava ensinando. Essa é a melhor forma de aprender e ensinar, aquela que
fica inconscientemente marcada na gente. Em que nós não sabemos se estamos
agindo ou sendo agidos por essa influência.
É difícil lembrar de Chico sem a marca da saudade. A última
vez que nos encontramos, ele disse repetidamente: “pois é, nega véia, dessa
vez, eu acho que não tem mais jeito. Os cabras vão me pegar”. Eu só lembro de
ter dito: “não tem jeito o quê, Chico?”. E ele reafirmava: “eu acho que eles
vão me pegar”. Tentei insistir pra que ele fosse pra cidade pra denunciar. E
ele respondeu: “não adianta, toda vez que eu faço isso, eles dizem que eu faço
isso pra me promover, então quando eu morrer eles vão ver que não era pra me
promover”. Caminhamos até o ônibus, nos abraçamos e nos despedimos. Passaram
cinco dias, daquele último encontro, até pegarem Chico. Andei e trabalhei com
ele até seu assassinato, de forma brutal e covarde, há 30 anos atrás. Mas é
impossível rememorá-lo sem prosseguir na luta.

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