Tal como os resíduos tóxicos que transbordam de uma barragem
fragilizada e vulnerável pela combinação assassina da negligência com a
ganância, também os rejeitos da velha política contaminam o ambiente já
debilitado da democracia e das instituições republicanas ao trazer a escória
das redes sociais para o palco central das decisões do poder.
Perdoe a metáfora impiedosa, mas vivemos tempos de complexas
e profundas mudanças tecnológicas, culturais e comportamentais, que merecem
contínua reflexão, análise e consideração. A imagem de um país degradado em
meio ao mar de lama é emblemática. Na era das fake news, verdades precisam ser
ditas.
É ponto pacífico que necessitávamos de um freio urgente aos
desmandos e abusos da máfia estabelecida no governo federal – então não foi à
toa a vitória de quem mais soube explorar a radicalização antipetista, ou a
aversão ao status quo. Porém, é aquela velha história: a diferença entre o
remédio e o veneno está na dose aplicada.
O fato de o Brasil eleger o que já chamamos aqui de “o meme
que virou presidente” criou em alguns a ilusão do aprimoramento da participação
popular através de uma quase reinvenção da democracia direta, traduzida nessa
espécie de ágora virtual, online e responsiva, como manda o código de etiqueta
da internet, e instituída de maneira aparentemente espontânea, horizontal e
descentralizada.
O brasileiro anônimo, ou o chamado “cidadão de bem” até
então excluído daquilo que se entendia como “fazer política” do modo mais
convencional e organizado, aliás também fortemente avesso ao sistema partidário
e eleitoral vigente, ganha um protagonismo inédito, histórico e revolucionário
com as suas intervenções autorais por meio de postagens, memes, lives, stories,
curtidas, comentários e compartilhamentos.
Partidos, sindicatos, ONGs e associações tradicionais
envelheceram rapidamente, perderam credibilidade e foram substituídos por novas
plataformas, grupos no WhatsApp, comunidades no Facebook e perfis no Instagram.
Velhas causas e bandeiras foram trocadas por modernas hashtags, reivindicações
pontuais e manifestações difusas. A militância de esquerda, com seu antigo
charme e líderes maculados pelo fiasco criminoso do PT, foi fragorosamente
derrotada pelo pragmatismo dos influenciadores digitais e pelo poder ofensivo
dessa nova direita.
O grande problema, na minha modesta e parcial opinião, é que
apenas invertemos a mão de direção da má política. Trocamos seis por meia
dúzia. Substituímos estúpidos de esquerda por boçais de direita, sem
meio-termo. Não há nenhuma inovação nos métodos, práticas e conceitos. Saem os
seguidores fanáticos de um lado e entram seus opositores na contramão, tão
limitados e danosos quanto seus antecessores.
Ou será que dá para considerar “nova política”, ou comemorar
o início da tal “nova era”, como anunciada pelo fã-clube do bolsonarismo, esse
substrato ideológico que tem como guru Olavo de Carvalho e como líderes e
principais expoentes Jair Bolsonaro e suas crias, além de Onyx Lorenzoni,
Damares Alves, Ernesto Araújo, Ricardo Vélez Rodríguez, Joice Hasselmann,
Alexandre Frota, Bia Kicis, Carla Zambelli, Major Olímpio, Major Vitor Hugo e
outros que tais da vanguarda do retrocesso?
Mauricio Huertas, jornalista, é secretário de Comunicação
do PPS/SP, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do
Blog do PPS e apresentador do #ProgramaDiferente

Nenhum comentário:
Postar um comentário