O corte de bolsas de pesquisa anunciado pelo
Ministério da Educação no começo da semana vai retardar o início de um estudo
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que investigará uma arma
promissora contra um tumor de cérebro: o vírus da zika. A biomédica Gabriella
Pinheiro Alves de Freitas, pesquisadora que pretende investigar em seu
doutorado a segurança do novo tratamento – etapa imprescindível para que ele
possa ser testado em pacientes humanos –, receberia uma das 5 613 bolsas
cortadas nesta semana (se a conta incluir outros cortes anunciados pelo governo
Bolsonaro desde o começo do ano, já são quase 12 mil bolsas a menos).
Análises preliminares realizadas pela equipe do Instituto de
Ciências Biomédicas da UFRJ e por outros grupos de pesquisa indicaram que o
vírus é capaz de matar células de glioblastoma, o mais comum e agressivo tipo
de tumor de cérebro. Não há cura conhecida para esse tipo de câncer, e os
pacientes sobrevivem em média de catorze a dezoito meses depois do diagnóstico.
O tratamento indicado pode incluir a cirurgia para retirada do tumor,
radioterapia e quimioterapia. “Mas é meramente um paliativo”, disse a bióloga
Patrícia Garcez, líder do grupo da UFRJ que estuda o tumor. “Há mais de dez
anos não tínhamos novidades no tratamento do glioblastoma.”
A novidade é o vírus da zika – o mesmo que causou a epidemia
em 2016 e deu origem a uma geração de crianças com microcefalia contraída no
útero das mães. Garcez contou que outros grupos já fizeram testes pré-clínicos
bem-sucedidos em culturas de células e em animais, mas falta se certificar se o
tratamento é seguro para pacientes humanos e definir a dose adequada para os
testes. Era isso que Gabriella Freitas pretendia fazer durante o doutorado.
“Precisamos do trabalho dela para seguirmos para os ensaios clínicos”, disse a
orientadora.
Freitas já tinha estudado células de glioblastoma no
mestrado em ciências morfológicas pela UFRJ, feito com bolsa do CNPq (Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), agência de fomento
vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
Defendeu sua dissertação na última semana de agosto e se preparava para emendar
com o doutorado – passou em primeiro lugar no exame seletivo para seu programa
de pós-graduação, avaliado com nota máxima pelo Ministério da Educação (MEC).
A doutoranda receberia durante quatro anos uma bolsa de 2
200 reais da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior, agência vinculada ao MEC. Na segunda-feira (02/09), Freitas entregou
os papéis para formalizar o recebimento da bolsa; no dia seguinte, recebeu da
coordenação o anúncio de que o benefício tinha sido cancelado. “Eu estava
empolgada para continuar a pesquisa, porque temos resultados promissores”,
disse a pesquisadora. Nesta semana ela pretendia desenhar os primeiros
experimentos, para executá-los na semana seguinte. “Agora vai ser tudo
pausado.”
Patricia Garcez, a orientadora de Freitas, é a líder de um
dos grupos de pesquisa brasileiros que uniram forças para comprovar que os
casos de microcefalia eram de fato provocados pelo vírus zika. Os resultados
foram publicados
na Science, uma das mais prestigiosas revistas científicas do
mundo, num artigo assinado por dez pesquisadores da UFRJ, do Instituto D’Or de
Pesquisa e Ensino e da Universidade de Campinas. Dos dez autores, seis eram financiados
por bolsas de doutorado e pós-doutorado pagas pela Capes ou pelo CNPq.
“Só conseguimos os avanços na pesquisa sobre o vírus zika
porque tínhamos as pessoas certas na hora certa”, disse a bióloga. A pessoa
certa, no caso atual, é Freitas, a integrante do grupo com a expertise
necessária para determinar a segurança do tratamento contra o tumor de cérebro.
Garcez terá que treinar outro aluno caso ela se afaste, e tão cedo não poderá
dar início aos experimentos. “O projeto vai sofrer muito se perdermos a
Gabriella, vai demorar muito mais.”
A estudante perdeu sua única fonte de renda, no meio de sua
formação – uma jornada de dez anos (quatro de graduação, dois de mestrado e
quatro de doutorado). “Infelizmente a bolsa é o salário do jovem pesquisador no
Brasil”, disse Freitas, que ainda não sabe como vai se manter. A estudante quer
seguir fazendo pesquisa, mas precisará encontrar alguma forma de sustento se
não tiver bolsa. “Não tem como trabalhar de graça.” A doutoranda continua a
frequentar o laboratório da UFRJ. Sua última bolsa de mestrado, referente a
agosto, caiu no começo do mês.
Na avaliação do físico Luiz Davidovich, presidente da
Academia Brasileira de Ciências, o corte de bolsas na Capes e no CNPq pode
afetar a produtividade científica do país no curto prazo. “Isso talvez a gente
já comece a sentir daqui a dois ou três anos”, disse Davidovich. Mas haverá
também impactos de longo prazo, continuou. “Sem bolsas de iniciação científica
para a graduação, os estudantes deixarão de ser atraídos para a pesquisa.”
O físico tem ido a Brasília se encontrar com parlamentares e
representantes do governo para defender mais recursos para ciência e
tecnologia. Nesta quinta-feira (05/09), falará em nome dos cientistas numa
audiência pública sobre o corte de bolsas na Comissão de Educação do Senado.
Davidovich está preocupado também com o orçamento apresentado pelo governo para
2020, que prevê “cortes violentos” de recursos para ciência e tecnologia em
órgãos como a Capes, o CNPq e a Embrapa. “Se esse orçamento vingar, vai ser o
apagão da ciência”, afirmou. “Não vejo como o Brasil vai sair da recessão dessa
forma.”
Procurada pela piauí para comentar o corte,
a Capes afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que as bolsas em vigor
estão mantidas e que “a medida representa uma
economia de 37,8 milhões de reais em 2019, podendo chegar a 544
milhões de reais nos próximos quatro anos”.
Numa carta
assinada por setenta pesquisadores, a Coalizão Ciência e Sociedade afirmou
que, “em momentos difíceis, cabe aprender com outras sociedades que, diante de
crises econômicas e sociais, asseguraram e mesmo elevaram o investimento em
ciência e tecnologia, o exato oposto da política que se executa no país”.
Repórter da piauí desde 2010, é autor do
livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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