Em janeiro, Jair Bolsonaro assinou decreto sobre a posse de
armas com uma caneta Bic e disparou enfáticas ameaças de que iria “usar a Bic”
para fazer e acontecer. Agora, ao declarar guerra ao
presidente francês Emmanuel Macron, anunciou que deixará de usar a Bic por ela
ser francesa. Trocou-a pela Compactor, brasileira. Ao abandonar uma marca de
caneta por ela representar a cultura de seu inimigo, embora a Bic esteja no
Brasil há mais de 60 anos, Bolsonaro deveria estender esse boicote a outros
produtos originários da França.
Não deveria, por exemplo, continuar indo ao toalete, ao
lavabo e ao bidê. Seu —perdão— menu teria de cortar canapés, patês, baguetes,
caviar, bombons, croissants, croquetes, omeletes, filés, suflês, purês, champignons
e maioneses. E sua mulher, a bela, jovem, irresistível, incomparável e inútil
Michelle, teria de deixar de usar sutiã, lingerie, robe, echarpe, maquiagem,
bustiê, pompom, peruca, viseira, maiô, batom e bijuterias.
Bolsonaro teria também de suprimir palavras que simbolizam
bem o seu estilo de governar: o deboche,
a revanche, a chantagem, o complô. Seus filhos não poderiam mais usar boné,
tomar champanhe ou ir a boates. Os desocupados que o aplaudem na porta do
palácio —sua claque— seriam dispensados. Seus netos ficam proibidos de ter
gripe ou coqueluche. E Bolsonaro deveria se preocupar com o Queiroz —seu
ex-chofer. Mas o principal é que, como presidente, ele parasse de cometer
gafes.
E é bom que Bolsonaro não brigue com a premiê alemã Angela
Merkel. A caneta Compactor, que ele adotou, nasceu na Alemanha, fabricada pela
Compaktor Fullhalterfabrik, e veio para o Brasil em 1952, produzindo
canetas-tinteiro. Só aderiu às esferográficas —uma invenção da Bic —em 1984.
Mas, para que canetas? Para assinar qualquer coisa, basta a
Bolsonaro enfiar um dedo na tinta e fazer um xis.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen
Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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