Por que uns podem e outros não?
Curioso!
Bolsonaristas, mas não só, cobraram tanto do The Intercept
que revelasse suas fontes de informação sobre as conversas dos procuradores da
Lava Jato.
Por que não cobram da Folha de S. Paulo e do jornal Globo
que também revelem as fontes lhes deram os áudios de Queiroz? Nesse caso, dá-se
como compreensível que os jornais não revelam.
Não são obrigados a fazê-lo. A lei não exige isso deles. De
resto, se revelassem, dificilmente teriam acesso a informações sigilosas que só
são repassadas à imprensa mediante o compromisso do sigilo.
As mesmas regras servem para que sites jornalísticos preservem
a identidade de suas fontes de informação. Então por que se cobra do The
Intercept o que não se cobra da imprensa tradicional?
Com a palavra, bolsonaristas e aliados deles, assumidos ou
disfarçados. O ex-juiz Sérgio Moro, que acusou o The Intercept de
sensacionalismo, poderia dizer o que pensa a esse respeito.
A exemplo de Moro, a defesa de Flávio Bolsonaro disse que
não teve acesso aos áudios de Queiroz e que não pode confirmar a autenticidade
do material.
O pavor que Queiroz infunde aos Bolsonaros
Pedido de socorro
Há farta munição guardada por aí e capaz de produzir sérios
estragos nas pretensões dos Bolsonaros. Será disparada aos poucos, de forma
calculada, para provocar maior sofrimento.
Uma família que fala pelos cotovelos, e também pelas redes sociais,
deixa rastros à beça. O que foi bom para ela no passado recente e ainda parece
ser bom, poderá ser muito ruim no futuro próximo.
Talvez seja por isso que o pai e os três filhos
recolheram-se ao silêncio desde que começaram a vazar áudios de conversas entre
Fabrício Queiroz e interlocutores desconhecidos até aqui.
Somente advogados têm saído em socorro deles. Mais
precisamente em socorro do senador Flávio Bolsonaro, ex-chefe de Queiroz, de
quem se aproximou por ordem expressa do pai.
Flávio e Queiroz estão metidos no escândalo da rachadinha na
Assembleia Legislativa do Rio. Era Queiroz que empregava, ali, funcionários
fantasmas e subtraía parte do salário deles.
Os dois estavam sendo investigados pelo Ministério Público
Federal até que o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal
Federal, disse basta. Desde então Flávio anda caladinho.
Queiroz começou a falar. O que ainda não se sabe é se foi
ele próprio que deu um jeito de vazar o que andou dizendo. Ou se foi traído por
um dos que o escutavam em um grupo de WhatsApp.
A traição é grave. Mas a eventual simulação por parte de
Queiroz seria muito mais. Queiroz disse que se sente abandonado, enquanto
Adélio Bispo, autor da facada em Bolsonaro, estaria superprotegido.
Pior: Queiroz contou que Bolsonaro, possivelmente antes de
se eleger, telefonou para ele e afirmou que iria demitir uma funcionária
fantasma do gabinete do seu filho Carlos, o vereador.
A funcionária havia sido descoberta pela imprensa. Mantê-la
como falsa empregada do filho criaria problemas para Carlos e para ele também.
À época, Queiroz já estava na mira do Ministério Público.
Essa é a história mais cabeluda que Queiroz deixou escapar
com suas inconfidências. Porque mostra que Bolsonaro sabia do esquema de
rachadinha nos gabinetes de Carlos e de Flávio.
Os áudios de Queiroz acenderam a luz vermelha no círculo
estreito dos Bolsonaros e dos seus parentes mais próximos. Queiroz pediu
socorro para não cair na tentação de delatá-los.
Dois presidentes improváveis obrigados a conviver
Fernández e Bolsonaro
Aberto Fernández, 60 anos, professor de Direito, foi
vereador em Buenos Aires e nada mais pelo voto em sua vida até se eleger, ontem
à noite, presidente da Argentina no primeiro turno.
Jair Bolsonaro, 65 anos, ex-capitão do Exército, foi
deputado federal ao longo de 28 anos e nada mais pelo voto até se eleger
presidente do Brasil em outubro do ano passado no segundo turno.
Fernández veio da direita para a esquerda. Alguns acham que
ele não chegou a tanto. Com boa vontade, à centro esquerda. Bolsonaro sempre
foi de extrema-direita e faz questão de nela permanecer.
Nem o mais sonhador dos peronistas teria sido capaz de
imaginar há três anos que Fernández acabaria por encabeçar uma chapa com a
ex-presidente Cristina Kirchner de vice.
Ele foi chefe do gabinete dela na Casa Rosada até que os
dois se desentenderam. Por quase 10 anos não trocaram uma palavra. E Fernández
tornou-se um dos mais duros críticos de Cristina.
Bolsonaro não precisou brigar com ninguém, nem
reconciliar-se com ninguém para ser candidato à sucessão de Michel Temer.
Reuniu os filhos, deu ordem unida e saiu em campanha.
Empenhado em construir uma alternativa para o peronismo sem
Cristina, Fernández convenceu-se ou foi convencido de que o melhor seria
compor-se com ela desde que isso fosse possível.
A princípio, Cristina não admitia vê-lo nem que ele
reluzisse a ouro. Depois, ré em 12 processos por corrupção, ela finalmente
admitiu que sua reeleição seria difícil e concordou em lançar Fernández.
Se tivesse dependido de Bolsonaro, Maurício Macri, que
cederá a Casa Rosada a Fernández, teria sido reeleito. Bolsonaro tentou interferir
várias vezes na eleição argentina. Sem sucesso.
Se dependesse de Fernández, Lula já estaria livre a essa
altura. Ontem, pela manhã, Fernández saudou Lula no Twitter. À noite, no seu
discurso de vitória, gritou “Lula livre” e foi aplaudido.
Fernández se elegeu porque Macri falhou na promessa de tirar
a Argentina do buraco econômico em que Cristina a deixara. Hoje, a situação da
Argentina é muito pior.
Sem programa de governo, sem ter feito campanha depois da
facada que levou, Bolsonaro se elegeu por conta da crise econômica legada por
Dilma e dos escândalos de corrupção do PT.
Na Argentina, o peronismo está em cartaz desde os anos 40 do
século passado. No Brasil, o bolsonarismo é invenção recente. Só se afirmará
como um fenômeno se vencer outra vez em 2022.
O Brasil e a Argentina são históricos parceiros. Juntos
representam 63% da área total da América do Sul, 60% da sua população e 61% do
seu Produto Interno Bruto.
No comércio, a Argentina é o terceiro maior parceiro do
Brasil. Só perde para a China e os Estados Unidos. E o Brasil é o maior
parceiro comercial da Argentina.
O peso econômico que cada um representa para o outro deverá
se sobrepor às diferenças políticas entre os dois presidentes improváveis que
serão obrigados a conviver em breve.
Bolsonaro estendeu as mãos para os árabes depois de ter dito
que sua afinidade era com Israel. E foi à Pequim negociar com os comunistas
apesar de repetir que o comunismo ameaça o mundo.
Em meados de 2017, o grupo terrorista Estado Islâmico já
havia destruído 12 sítios arqueológicos no Iraque, assim como uma mesquita de
mais de 800 anos na cidade de Mossul.
Mas sempre que encontrava arcas carregadas de dólares nesses
e em outros lugares, o grupo as preservava intactas. Nem terrorista é louco
para rasgar dinheiro.

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