Correndo de praia em praia, seguindo a mancha de óleo no
Nordeste, tive uma noite livre para pensar na política nacional.
Dizem que é nova política. Não sei se tenho condições de
entendê-la. Mas o exame da política de sempre é o critério que tenho para
analisar esses fatos. Na minha tosca enciclopédia, dois verbetes dariam conta
da fúria de Bolsonaro contra um ciclista e a divisão desse estranho partido que
é o PSL: esqueletos no armário e racha, entendido aqui como a cisão num grupo
partidário.
Esqueletos no armário podem ser cadáveres reais ou mesmo
episódios que governos ou partidos querem ocultar porque a transparência, nesse
caso, é indesejável. Fabrício Queiroz é um esqueleto no armário. Há muitas
formas de tratar disso. Bolsonaro parece ainda inexperiente no assunto. Ao
gritar que Queiroz estava com a mãe do ciclista, ele apenas usou a pior tática:
chacoalhar os ossos e chamar a atenção de todos para o esqueleto rangendo
contra a madeira.
Esqueletos no armário são corrosivos. Os ultrafiéis não se
importam, talvez nem acreditem que essas coisas aconteçam nos bastidores. Há um
grupo que simplesmente aceita, com o argumento de que o objetivo é maior e que
essas coisas acontecem mesmo em todos os partidos.
Mas essa concordância entra em colapso quando o chamado
objetivo maior não se realiza. Manter os esqueletos silenciosos no armário é
uma tarefa difícil também a longo prazo. Bolsonaro, diga-se a seu favor, não é
dos mais brilhantes na tarefa.
Outro tema que me interessou foi a história de um possível
racha no PSL. É o partido de Bolsonaro, e ele disse que é preciso esquecê-lo.
Disse ainda que o presidente do partido estava queimado para caramba. É um
partido que movimenta milhões. E brigas partidárias, apesar de sua natureza
diferente, lembram separações conjugais: quem fica com o quê?
No nosso movimento estudantil, os rachas, quando aconteciam,
sempre desfechavam uma disputa em torno do mimeógrafo. Bem mais poético que
agora.
Não há grandes divergências ideológicas no PSL. Não há
correntes de pensamento definidas. São indivíduos e suas carreiras políticas.
Se houvesse espaço, avançaria em outro verbete da tosca enciclopédia: as
bancadas eleitas pelo populismo. São heterogêneas, compõem-se de gente que
expressa proximidade com o líder, repete um ou outro dos seus slogans, e
pronto.
Imagine o que acontece quando se injetam milhões de reais
num agrupamento com essa consistência política? Não se trata mais de discutir
quem fica com o quê, depois de uma divergência ideológica.
Nesse caso, o dinheiro é a própria razão do conflito.
Dinheiro público, pois acabou o financiamento privado.
Nos partidos chamados nanicos, o fundo oficial é uma espécie
de vaquinha que alimenta os dirigentes, consegue mantê-los com uma renda
pessoal. Mas quando a soma é gigantesca, em R$ 350 milhões, como no PSL, é
certo que vão se dilacerar para decidir quem gasta o quê, campanhas vão
florescer; outras, submergir.
Sempre tive essa intuição sobre a briga atual do PSL. Temia,
no entanto, supersimplificar. Afinal, é possível que tenham ideias. Ganhei um
pouco de coragem para enunciá-la porque no momento em que perguntaram a
Bolsonaro qual era o problema do PSL, ele respondeu: é o tesoureiro.
No tempo em que, diante da complexidade de governar o país,
o problema do partido dominante é o tesoureiro, meu tosco arsenal carece de
atualização. Faltam categorias. Esperava que o líder populista entrasse em
conflito com sua base pantanosa. Pensei em infidelidade partidária, em choque
de egos.
O tesoureiro me escapou. Tesoureiros de partidos costumavam
ser presos, em tempos de financiamento privado. Agora, são o objeto de desejo.
A nova política não se cansa de me surpreender. Embora se
diga defensora de valores tradicionais e prometa uma volta ao passado num mundo
que se transformou profundamente, o seu tema central, no fundo, é o mais
prosaico: dinheiro.
Aliás, ele é também a causa do ruidoso esqueleto no armário.
Não apenas por ofensas ao ciclista. Os ossos rangem estrepitosamente desde o
momento em que Toffoli proibiu a cooperação entre receita e órgãos
investigativos. É uma espécie de grito: há alguma coisa errada entre nós; logo,
suprimam-se as investigações.
Artigo publicado no jornal O Globo em 14/10/2019

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