Não, não se assustem. Não estou cavando processos, nem
desafiando decoros, liturgias ou normas legais. Tampouco comprometendo
esta Folha. Apenas reproduzo no título palavras
literais do então líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir.
Antes, as conversas
divulgadas pelo site The Intercept mostraram
um ambiente pior do que muitos imaginavam. Escolha o crime: promiscuidade
judicial, um magistrado indigno desse nome, articulações com potências
estrangeiras, delações selecionadas a dedo, atos de troça e desumanidade diante
de tragédias de indiciados, manipulação de “provas”, desrespeito ao que deveria
ser um Supremo Tribunal Federal, monetização de informações sob segredo
judicial, procuradores que só encontram o que querem achar (desde que
valham “400
k”).
Tudo invocado em nome do “combate à corrupção”. Deixo as
risadas ao sabor dos leitores.
Mesmo jornalistas iniciantes são capazes de identificar o
jogo jogado desde a Lava Jato.
Assim como os motivos. Governos de alguma preocupação social ameaçaram séculos
de hegemonia do 1% mais ricos.
Ameaçar nem seria bem o termo. Arranhar soa mais adequado.
Acusar os governos Lula e Dilma de
“vermelhos”, “socialistas” e “bolivarianos” serviram de hipérboles típicas dos
arautos de um sistema em que liberdade, fraternidade e igualdade são anátemas a
riscar dos dicionários. Pergunte aos banqueiros, senhores da mídia, colunistas
de aluguel e capitalistas internacionais apavorados com a nova crise mundial
que se avizinha.
Jair Bolsonaro,
o “vagabundo” aplaudido por exploradores de lenocínio como Oscar Maroni,
empresários que devem os tubos à Receita, milicianos armados, tubarões de mídia
beneficiários de concessões públicas —Bolsonaro foi o que restou a uma elite
apodrecida após a perseguição a Lula e o impeachment industriado
de uma presidenta. Dilma pode ser criticada por muita coisa, inclusive por um
governo pífio e desorientado no segundo mandato —menos de ter avançado sobre um
único centavo do povo trabalhador.
No lugar dela, assistimos agora a um governo carcomido por roubalheiras, laranjais,
amigos de um capitão medíocre e obscurantista, chefe de uma família decomposta
—todos orientados por um astrólogo caçador de ursos e saudoso da ditadura.
Impressiona que ditos intelectuais e “oposicionistas”
refrigerados a ar condicionado reajam a tudo com entrevistas emasculadas.
Limitem-se a considerar “polêmicas” declarações sobre
torturas, massacre de presos e extermínio de crianças e pobres indefesos.
Conformem-se (ou até festejem) ao ver um “vagabundo” sentado no Planalto.
Observem sem maiores dramas um réu confesso como Sergio Moro pontificar
sobre “porretes e cenouras” depois de abusar da delinquência ao grampear
ilegalmente uma presidenta e um ex-presidente da República.
Mas isso também tem sua explicação. Por trás do histrionismo
dos “quebra-queixos” temperados por baixo calão, parcos direitos sociais vêm
sendo exterminados na surdina de acordos espúrios do velho Congresso de
sempre.
Como bem disse o presidente do maior banco privado do
Brasil, deixa o cara falar. Importantes são as contrarreformas destinadas a
retroagir o país ao estágio pré-colonial. Uma nação de boias-frias que
trabalham por um prato de comida para não desmaiar ou enfartar no meio da rua;
sobreviver com migalhas recolhidas em latas de lixo.
Esse é o ponto. Forma e conteúdo não se separam. O Brasil
está às vésperas de uma explosão social. Quando? Não há mal que sempre dure.
Mas está demorando demais.
Ricardo Melo
Jornalista, ex-presidente da EBC (Empresa Brasil de
Comunicação) e apresentador do programa 'Contraponto' na rádio Trianon de São
Paulo (AM 740)

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