Bolsonaro transforma briga no PSL em voto de desconfiança
contra governo
A guerra no PSL é um retrato acabado da operação política
desvairada de Jair Bolsonaro. O presidente usou o Planalto para tentar derrubar
o líder do próprio partido –e fracassou; recebeu retaliação de aliados e foi
gravado por um correligionário; depois, demitiu a líder do governo, a quem
acusa de traição. Tudo isso em apenas 24 horas.
Ao mergulhar na disputa pelo comando da legenda, Bolsonaro
lançou uma espécie de voto de desconfiança dentro de sua própria sigla. O
presidente pediu um sinal de apoio a si mesmo quando apelou aos deputados para
que destituíssem o líder do PSL. Para piorar, ofereceu o filho Eduardo como
substituto e foi obrigado a ver parte da sigla reagir contra alguém com seu
sobrenome.
A retirada de Joice Hasselmann da liderança do governo no
Congresso é um sintoma claro de que a expressão política do bolsonarismo virou
fumaça (se é que um dia existiu).
O presidente se livrou imediatamente da deputada, porque ela
se recusou a assinar a lista que daria o comando do PSL na Câmara à facção
alinhada ao Planalto, mas manteve no posto o líder do governo no Senado mesmo
depois que ele foi alvo de uma operação da Polícia Federal.
Confrontado com o noticiário sobre as batalhas, Bolsonaro
dizia que era tudo fofoca. A gravação em que ele pede apoio a deputados e o
áudio em que o líder do PSL promete “implodir o presidente” mostram que o
mexerico é dos grandes.
Deputados que foram ao Planalto relataram que a ordem de
Bolsonaro seguia a linha: “assina, senão é meu inimigo”. Foi o próprio
presidente, portanto, quem incluiu seus impulsos personalistas incorrigíveis no
embate pelo comando da sigla.
O capital eleitoral que levou Bolsonaro ao palácio e 53
deputados ao Congresso escorre pelo ralo numa enxurrada. Os sinais da desordem
sempre estiveram aí –da absoluta incompetência do governo na articulação ao
comportamento juvenil da bancada da selfie. A disputa só deixou mais visível o
diploma de baixo clero pendurado na parede.

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