Enquanto a mancha se desloca para o Sul e ameaça Abrolhos,
já não sei mais se a espero no Rio ou vou ao seu encontro. De qualquer forma,
tento manter o foco no desastre ambiental enquanto as loucuras na política se
desdobram num ritmo vertiginoso.
No princípio da semana, pensei em dedicar as horas vagas a
pensar na questão da linguagem na política, que me surpreende tanto quanto a
mancha de óleo. Os deputados do PSL brigam entre si com memes e se insultam
usando personagens de história infantil. Se não parasse com as crianças, de vez
em quando, não saberia quem é Peppa. Uma das contendoras na luta interna foi
chamada de Peppa pelos adversários. Ainda bem que eu já vi as aventuras da
porquinha rechonchuda.
Pensei em refletir sobre a nova geração de políticos e como
a linguagem da infância ainda está presente no seu imaginário.
Mudei de eixo à tarde. Vi imagens do depoimento de Alexandre
Frota na CPI das Fake News. Ele exibiu cartazes com frases do guru dos
Bolsonaro, Olavo de Carvalho. Era tão escandaloso que fiquei tentado a examinar
o avanço da linguagem pornográfica no discurso da extrema direita.
Foi então que vi aquele vídeo da hienas cercando o leão
Bolsonaro e pensei em voltar ao universo infantil. Não houve tempo. Eduardo
Bolsonaro invocou o AI-5, numa entrevista a Leda Nagle. Voltei aos anos 60 e
pensei até em mostrar como as coisas mudaram nesse quase meio século. Desisti
desse esforço pedagógico. As pessoas que confundem épocas tão díspares não o
fazem por ignorância, mas por necessidade. Constroem um enredo mental para o papel
que amariam representar. No caso de Eduardo Bolsonaro, é a vontade de reviver a
ditadura, com poder absoluto sobre a vida e a liberdade de expressão dos
outros.
Em certas viagens a Ouro Preto, fantasio uma volta ao século
XVIII. Mas só por alguns momentos, quando não há carros nem buzina.
Há tempos, quando Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle
Franco, foi preso, achei explosivo o fato de ser vizinho do homem que se tornou
presidente da República. Imaginei como isso não daria um roteiro para uma série
de televisão. Li que o filho mais novo do presidente namorava a filha do
matador. Imaginei as possibilidades clássicas dessa história.
Vejo surgir agora um novo personagem dramático: o porteiro
do condomínio Vivendas da Barra. Ele é o mais antigo dos funcionários, deve
conhecer todos os moradores, seus hábitos e relações superficiais. Sua
lembrança do dia da morte de Marielle Franco enriqueceu as fantasias sobre a
vizinhança de Bolsonaro com Ronnie Lessa, miliciano, matador e comerciante de
armas.
Será que o porteiro realmente viu um dos assassinos
procurando por Bolsonaro, que nesse dia estava em Brasília? Por que teria
anotado o número da casa buscada pelo cúmplice do matador como se fosse a casa
de Bolsonaro? Como pode ter ouvido a voz de seu Jair, sem estar sintonizado com
o canal da Câmara dos Deputados, onde Bolsonaro estava naquele momento?
Não vou especular sobre esse mistério, enquanto não ouvir a
versão do próprio porteiro. As procuradoras do MP do Rio dizem que ele
provavelmente mentiu.
Mas por que um velho e experiente porteiro confundiu duas
casas? Para nós que vemos imagens aéreas, elas são todas iguais. Somos traídos
pela superficialidade de nossa percepção, como os esnobes que dizem que a
caatinga é monótona porque toda a vegetação é igual.
Para ele, certamente cada uma delas tem uma história, desde
o tipo de visitas aos pequenos cuidados cotidianos, instalação elétrica,
vazamentos, no sentido literal.
Não entendo como pode ter confundido. Mentiu e enganou? Foi
induzido? Sua memória funciona bem ou já dá sinais cotidianos de pequenas
confusões? Para um roteirista, é relativamente fácil cobrir essas lacunas. Para
mim, no entanto, os tempos são desconcertantes. Volto a perseguir a mancha.
Também é desconcertante. Mas pelo menos vejo pessoas reais, com as luvas negras
de óleo, tentando limpar as praias, proteger corais e mangues.
Desenhos infantis, frases pornográficas, jovens aspirantes a
ditador ou mesmo intrincados enredos policiais — tudo é uma espécie de
desastre, mas pede outro tipo de voluntariado, equipamento e paciência.
Artigo publicado no jornal O Globo em 04/11/2019

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