O mandatário, todos sabem, tem uma visão muito própria —
beirando o pueril — sobre os inimigos que assolam seus pesadelos dia e noite.
Difícil mesmo é quando ele avança com essas fantasias sobre aqueles que até
outro dia eram tidos como aliados, tratados com tapinhas nas costas. Ministros
do Supremo, por exemplo. Foram eles ou não foram que acataram os apelos
presidenciais e imolaram as investigações por corrupção para salvaguardar a
honra e impunidade do filhote Flavio? Bolsonaro, em diversos momentos, é
injusto. Pouco agradecido. Até cruel.
Em um vídeo publicado nas suas redes sociais — que, por mais
que possa ter sido ato dos desvarios do outro rebento, Carluxo, o Messias
assumiu como responsável final —, o STF é tratado aos pontapés. Seus ministros,
classificados de hienas. No post, o leão Bolsonaro é rodeado por uma alcateia
de hienas na savana. O decano da Suprema Corte, Celso de Mello, respondeu à
altura, classificando o insulto de atrevimento sem limite.
Aliás, falta mesmo qualquer senso de limite a um capitão
que, no mais alto posto da República, sai a perseguir e a espinafrar quem lhe
dá na telha. Até parceiros vizinhos são alvos de sua ira e descontrole. Como
pirraça de criança malcriada, o Messias disse de público que não iria sequer
cumprimentar o vitorioso das urnas argentinas, Alberto Fernández. Carece Jair
do verniz de um estadista e da diplomacia usual nas relações externas que são
esperados nos que ocupam o Planalto.
Como questiona o outrora adversário eleitoral, Ciro Gomes,
quando é que este senhor vai começar a colocar os interesses do Brasil acima
das suas “baboseiras ideológicas”? Nessa toada, Ciro acredita que o
plenipotenciário capitão poderá entrar para a história como o pior presidente que
o povo já viu. A confirmar.
Mas voltemos aos adversários da vez. Os magistrados do STF,
de início. Curioso o timing da afronta presidencial. Justamente quando esses
ministros pensam em implodir com a Lava-Jato (desejo obviamente acalentado
também pelo Mito em suas divagações soturnas, intramuros do Palácio), Bolsonaro
surge achincalhando os togados. Estariam juntos, comungando do mesmo objetivo,
enquanto de público tentam aparentar divergências? O mandatário bem que tentou
contemporizar. Pediu desculpas. Tratou de recuar para manter firme a aliança.
O ministro Gilmar, que não tem papas na língua para
expressar seus mais recônditos anseios, disse, palavra por palavra, em
entrevista ao jornal espanhol “El País”, que não sabe se a Lava jato ainda é
necessária. “O que remanesce? Porque eu tenho a impressão de que a força-tarefa
é uma medida excepcional para situações excepcionais”. Jair Bolsonaro
compartilha da ira contra investigadores, embora tente disfarçar. Só explode e
perde as estribeiras quando as investigações partem para cima dele ou dos seus.
Não aceita e revida na base da bofetada.
Na madrugada da quarta-feira 30, logo após a reportagem da
Rede Globo que apontava movimentações suspeitas de milicianos no condomínio do
Messias, ele não se conteve e, colérico, chamou a emissora e o governador do
Rio, Wilson Witzel, de “patifes, canalhas” e outras ofensas do mesmo calão.
Colocou à mostra de quem pode assistir à “live” todo o seu descontrole e
despreparo para lidar com situações críticas. Não satisfeito, ainda partiu para
ameaças. Sugeriu cassar concessões do grupo e cortar verbas publicitárias,
extrapolando, e muito, as atribuições do posto.
As atitudes autoritárias vão virando sua marca. Bolsonaro
não respeita ninguém. Traiu aliados, insurgiu-se contra o Congresso, reclamou
do Judiciário, de ministros e auxiliares, da Polícia Federal, das instituições
e poderes constituídos, da mídia, do povo. Deve assim acabar sozinho. Enxerga
inimigos até debaixo do travesseiro. Cada dia mais se assemelha com a figura de
um déspota, capaz de tudo contra todos – apesar do regime democrático ainda
vigorar por essas paragens. No cabo de força do suposto “Rei Leão” contra as
“hienas”, usando da mesma metáfora do capitão para o autorretrato, é preciso
verificar quem vai rir por último.

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