sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

FICÇÃO E REALIDADE

José Castello, O GLOBO
Livros crescem com o avançar do tempo. Alguns se tornam espantosos. Já se passam quase 40 anos que Ignácio de Loyola Brandão publicou Não Verás País Nenhum (Global, 1981). O romance desenha uma impressionante distopia que antecipa, em traços medonhos, o futuro brasileiro. Lido hoje, e isso é assustador, ele não trata mais de um futuro longínquo, mas de algo muito parecido com nosso presente. As distopias guardam esse poder perverso: quanto mais o tempo passa, em vez de se dissolverem no passado, elas se agigantam e devoram a realidade. Afirmam-se não mais como pesadelos, mas como verdade.
O romance de Loyola, que antevê um Brasil dominado pelo fascínio autoritário, pela destruição da natureza, pela legalização da violência e pela reinvenção perversa da História, traça um retrato aterrorizante de nosso futuro não mais distante e improvável, mas imediato.
Uma década antes, em plena ditadura militar, José J. Veiga publicou Sombras de Reis Barbudos” (Companhia das Letras), narrativa em que a tirania e a violência se apresentam como benignas. Assim como em Não Verás País Nenhum, o presente é dominado por uma organização todo poderosa conhecida apenas como o “Esquema”. Veiga desenha um futuro em que noções de eficácia, vantagem e lucro atropelam todos os valores humanos e se impõem como única lei. Ideário que, mais uma vez, antecipa nossos tempos.
Um salto para a frente nos traz a narrativas não menos atordoantes. A Morte e o Meteoro (Todavia), novela de Joca Reiners Terron, reafirma, de modo agudo, tudo o que a ficção de Loyola anteviu. Já não estamos em nosso presente, mas dez ou vinte anos adiantados. A Amazônia está destruída. Uma última e frágil tribo indígena, sem a floresta que sempre a abrigou, e em uma operação ousada, pede asilo ao México. Os valores humanos foram jogados no lixo. O mundo se torna inóspito e a paranoia, real. Já não há mais para onde fugir. Até porque Terron vislumbra um desastre ainda maior, que destruirá todo o planeta.
Mas a devastação não é só exterior, é também interior, como anuncia, aos calafrios, A Estética da Indiferença (Iluminuras), romance de Sidney Rocha. Em um mundo irrespirável, só nos resta sobreviver em condomínios fechados, isolados da realidade, bolhas arquitetônicas que, se trazem a sensação de segurança, geram também um indisfarçável sentimento de morte. Michi e Ana, os dois protagonistas, refugiam-se em um falso Éden, que mais se parece com a gaveta de um necrotério. Para não morrer, morrem.
O passado e história – como hoje – já não lhes interessa mais. Escondem-se numa espécie voluntária de sonambulismo, tornam-se fantasmas ambulantes a exibir sua falsa felicidade. Em Cromane, a cidade em que vivem, “a luz é sempre teatral”. O mundo fake derrotou a realidade e tudo o que sobra é uma grande melancolia. O livro de Sidney Rocha faz uma síntese do que nos resta para viver: ou nos fingimos de vivos, ou desaparecemos. Mas isso é uma escolha?
Este mundo em que o presente é engolido pelo pesadelo já nos foi anunciado por João Gilberto Noll na novela Harmada (Companhia das Letras), de 1993. Quando o real desfalece e sobram apenas prenúncios de morte, só resta ao protagonista vaguear, perambular, saltar de um ambiente a outro – de um palco a outro, como um ator sem papel. Não mais buscando alguma coisa, porque nada mais há a buscar, e tampouco fugindo, porque não adianta mais fugir, mas só para conservar a sensação – vaga, trêmula – de existir. O outro não passa de um vulto, ou de um objeto quebrado. Afundamos na solidão.
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