“O Rio vive uma tragédia na saúde. Continuamos com altíssima
mortalidade infantil. A saúde será minha prioridade número um. Vou reduzir a
espera e melhorar o atendimento.” Eis a transcrição de uma fala de Marcelo
Crivella em 2016, na eleição em que o bispo licenciado da Igreja Universal
finalmente conseguiu, depois de quatro derrotas, chegar a um cargo no Executivo
do Rio de Janeiro. A promessa seria só mais uma a não ser cumprida, como tantas
Brasil afora, se não estivesse a saúde do Rio de Janeiro numa situação caótica,
com o autor das promessas tendo de passar o pires em Brasília, em busca de
dinheiro para pagar os profissionais há três meses sem salário e tentar reabrir
hospitais e postos de saúde fechados. Mas não é só na saúde que moram os
problemas do Rio de Crivella. A cidade está abandonada em diversas áreas, sendo
o prefeito um dos mais impopulares das últimas décadas. No caldeirão de razões,
há desde desvarios populistas, como a destruição da Linha Amarela em outubro,
até decisões guiadas pelo fundamentalismo religioso, como a censura na Bienal a
um gibi que trazia um beijo gay ou a guerra ao Carnaval.
Para além de lances mais midiáticos, a prefeitura de
Crivella é péssima também nas miudezas do dia a dia, com uma gestão sem rumo. E
este é um fato que traz consigo um significado que vai além do Rio. A menos que
ocorra um milagre, dificilmente Crivella conseguirá reverter em seu quarto e
último ano a tragédia que foi a primeira administração evangélica numa grande
capital. Seu fracasso será o fracasso da Universal na política e um golpe no
projeto de poder que mistura fé e votos. Uma derrota que pode respingar até em
Jair Bolsonaro.
O carioca tem penado. Na quarta-feira 11, funcionários do
Hospital Salgado Filho, na Zona Norte da cidade, descreviam a situação como de
“guerra”. Dezenas de pacientes se amontoavam nos corredores, alguns ainda
ocupando as mesmas macas das ambulâncias em que haviam chegado de madrugada. Do
lado de fora, os carros do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu)
seguiam estacionados do lado de fora, sem poder sair sem as macas.
Culpar só Crivella pelos problemas seria injusto. A situação
transcende governos, como em boa parte do país. Mas o homem que tinha como
slogan de campanha a promessa de “cuidar das pessoas” agravou bastante o
quadro. Embora o Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro tenha
atestado que Crivella recebeu as contas da prefeitura no azul, o prefeito
continua, aqui e ali, culpando um suposto rombo bilionário que teria herdado de
Eduardo Paes como a razão para o desgoverno. A saúde, porém, está longe de ser
o único problema de sua gestão.
Há ainda uma forte crise fiscal, com cortes de investimentos
não só na saúde, mas também na conservação da cidade, e escândalos gerados por
falas vazadas do prefeito — como quando disse que o Rio é “uma esculhambação
completa” ou orientou pastores evangélicos a recorrer a uma assessora sua para
ter acesso privilegiado a cirurgias ou à isenção do IPTU. Foi esse caso a base
para um pedido de impeachment do qual ele conseguiu escapar, em junho.
O Ministério Público apresentou uma ação civil pública
listando outros desses momentos em que Crivella misturou religião com
administração pública: eventos da Universal em escolas públicas, com divulgação
da logomarca da igreja; dois censos religiosos feitos com agentes da Guarda
Municipal; cessão gratuita da Cidade das Artes para o Festival de Cinema
Cristão e do Sambódromo para a Vigília do Resgate; corte no apoio de eventos
religiosos de matrizes africanas e a concessão de títulos de utilidade pública
a igrejas evangélicas.
Não que algum desses atos tenha sido exatamente uma
surpresa. Engenheiro de formação, cantor gospel de sucesso, Crivella se fez na
política nas asas da igreja do tio, o bispo Edir Macedo, fundador da Universal.
Entrou na política como senador e foi ministro da Pesca do governo Dilma
Rousseff sempre com um pé na fé. Sua eleição em 2016 teve forte componente
religioso, com todos os pastores, mesmo os adversários de Macedo, unindo-se em
torno dele no segundo turno, contra Marcelo Freixo (PSOL).
O bispo licenciado melou até áreas que em condições normais
de temperatura e pressão não são ligadas a um prefeito. A destruição da praça
de pedágio da Linha Amarela, via que liga a Zona Norte à Zona Oeste, sob os
olhos de um Crivella com ar sádico, não teve efeito só no dia a dia da cidade.
A mensagem passada a investidores, em termos de segurança jurídica, foi
péssima. Tanto que seu nome passou a ser execrado na equipe econômica de Paulo
Guedes.
Agora, avizinha-se uma aliança com Bolsonaro. A difícil
reeleição de Crivella no ano que vem pode ser vitaminada com DNA bolsonarista.
Lopes não quer — considera, acertadamente, o cargo de
deputado federal superior ao de vice-prefeito. Mas, se Bolsonaro mandar,
aceitará. A dobradinha Crivella-Hélio Bolsonaro seria competitiva e, se
chegasse ao segundo turno de novo contra uma chapa de esquerda capitaneada por Freixo,
teria uma alta chance de vitória, com eleitores de centro votando nele por medo
do PSOL.
Entretanto, há um risco para Bolsonaro. Apoiar Crivella,
colocando um dos seus como vice do prefeito, traria para seu colo problemas que
não lhe pertencem. Indiretamente, o presidente também seria cobrado pelos
eventuais erros de um segundo governo do prefeito. Por outro lado, talvez valha
a pena correr o risco para ter um candidato competitivo na capital e, de
lambuja, agradar a Macedo.
O prefeito do Rio se diz perseguido. Pela oposição, por
vereadores clientelistas — com os quais, curiosamente, se entendeu para
enterrar o impeachment — e pela imprensa. Deve ser perseguido também pelos
sambistas do Concentra Mas Não Sai, bloco carnavalesco criado em 1995, que, como
sugere o nome, não desfila. Fica parado na Rua Ipiranga, em Laranjeiras, na
Zona Sul da cidade. Neste ano, o homenageado do Concentra foi o prefeito. O
samba — ouça no site da coluna — deu o troco a quem despreza a mais importante
festa da cidade: Prometeu e não cumpriu/Na cidade e na favela/Iludindo
os humildes/Pelas ruas e vielas/Na maior cara de pau/Diz que a cidade está
bela/Qual o nome do pilantra?/Diz aí.../Crivella!.
Com Eduardo Baretto e Naomi
Matsui

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