Se Jair Bolsonaro conseguiu transmitir na campanha a
impressão de que faria um governo linha-dura, deve ter sido um engano. No
poder, o presidente se mostrou disposto a implantar um libera-geral para
agradar suas bases políticas.
Nos últimos dias, Bolsonaro anunciou o desejo de lançar um
pacote para perdoar policiais que matam em serviço, grileiros e motoristas
infratores. Um observador desatento poderia achar que a generosidade do
espírito natalino invadiu o Palácio do Planalto, mas é só demagogia.
O presidente confirmou, na última semana, que vai incluir no
indulto de fim de ano agentes de segurança presos por crimes cometidos durante
o serviço. Ele argumenta que é injusto manter na cadeia “policiais que fazem um
excelente trabalho”.
A proposta é um convite à impunidade. A extensão do indulto
deve beneficiar agentes que participaram de confrontos com criminosos, mas seus
critérios também podem ajudar esquadrões da morte e policiais que cometeram
excessos graves.
Antes de assumir o cargo, em novembro de 2018, Bolsonaro
disse que não assinaria nenhum decreto de indulto em seu governo. O rigor
desapareceu quando ele decidiu usar a caneta para favorecer certos grupos.
A bondade vale para outro reduto eleitoral do presidente.
Ele foi buscar um parecer jurídico para perdoar multas aplicadas a quem ocupou
áreas de mata atlântica até 2008. Também editou uma medida de regularização de
terras que, segundo especialistas, favorece invasores de áreas públicas da
Amazônia.
Na maratona absolutória de fim de ano, Bolsonaro chegou a
dizer que os radares que voltariam às estradas por decisão da Justiça só fariam
“fotografias educativas”, sem punir quem ultrapassasse o limite de velocidade.
A imprudência foi desmentida pelo advogado-geral da União.
A compaixão se aplica, é claro, ao filho Flávio. Bolsonaro
xingou repórteres que perguntavam sobre as suspeitas de rachadinha no gabinete
do 01 e chamou as acusações dos promotores de “pequenos problemas”.

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