A convite da Folha, coube-me publicar este artigo no
primeiro dia do ano. Gostaria de desejar Feliz Ano-Novo aos leitores com
convicção. Mas tenho dificuldade de fazê-lo ao refletir sobre o ano que passou
e o que nos aguarda.
Falo especialmente da área ambiental. Em seu primeiro ano, o
governo Bolsonaro asfixiou os órgãos de proteção do meio ambiente e a Funai;
nomeou gente despreparada para essas funções e aniquilou o papel de liderança
mundial do Brasil neste tema, construção histórica iniciada na Rio-92 e que
passou por todos os governos desde então.
A política mais cruel do atual governo, porém, é o discurso
contra o ambiente e seus defensores e que tem se mostrado mais eficaz que
qualquer mudança na legislação ou nos mecanismos de gestão. Bolsonaro faz
campanha permanente e insidiosa contra florestas e povos indígenas. Seu
discurso acirra conflitos, desata ódios adormecidos, estimula o crime e a
violência. Seus seguidores se encarregam de sujar as mãos.
O “Dia do Fogo” na Amazônia (com recorde de desmatamento em
11 anos) e a matança de lideranças Guajajara, no Maranhão são exemplos
eloquentes dos efeitos do discurso presidencial. Lembremos do que disse Adama
Dieng, conselheiro da ONU para prevenção do genocídio, sobre os discursos de
ódio que estimularam chacinas em diferentes épocas e lugares: “As palavras
matam tanto quanto as balas”.
O ano que acabou foi o mais letal para as lideranças
indígenas no Brasil nos últimos 11 anos e tudo indica agravamento desse
cenário, com a promessa de Bolsonaro de permitir mineração e pecuária nesses
territórios. É o governo do “correntão” em sua acelerada marcha da insensatez.
O mais grave é que nada disso tira o sono dos entusiastas da
reforma da Previdência e da suposta recuperação econômica do país, tampouco dos
que garantem que “as instituições estão funcionando normalmente”. A esses pouco
importa o quanto ainda iremos recuar aos confins da escala civilizatória. Feliz
Ano-Novo???
Cristina Serra é paraense, jornalista e escritora.
Trabalhou nas redações dos jornais Resistência, Tribuna da Imprensa, Jornal do
Brasil, revista Veja e Rede Globo. Foi correspondente em Nova York e
comentarista de política do quadro “Meninas do JÔ”, no “Programa do Jô”. É
autora dos livros “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental
do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado – uma história de
conservação”.

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