Fim e começo de ano são épocas de balanço pessoal, familiar,
das empresas e mesmo do País. Sem maiores pretensões, direi umas poucas
palavras sobre o mais geral: o que me preocupa ao ver o Brasil como nação.
Primeiro, a maior angústia coletiva: levantar o gigante de
seu berço. Tarefa que vem sendo feita ao longo de gerações. É inegável que
houve avanços, alguns consideráveis. Bem ou mal, de uma sociedade
agrário-exportadora, que usava escravos como mão de obra, o País passou a
dispor de uma economia urbano-industrial, baseada no trabalho livre. Para isso
não só as migrações internas, como a imigração foram fundamentais. Com elas se
acentuou nossa diversidade cultural.
Hoje somos uma nação plural, na qual a contribuição inicial
dos portugueses se robusteceu muito, não apenas por havermos conseguido passar
da escravidão para o trabalho livre, mas também por termos incorporado os
negros à nossa sociedade (embora ainda de forma parcial) e em nossa cultura.
Incorporamos também um significativo conjunto de pessoas vindas da Europa
latina e de outros segmentos populacionais do continente europeu, além de
árabes e asiáticos, sobretudo japoneses. E desde o início da colonização houve
miscigenação com as populações autóctones.
Dado o mosaico, será que conseguimos de verdade criar uma
nação consciente de seu destino comum e acreditar que ele seja bom? Esse é o
desafio que explica parte de nossas incertezas. Hoje somos muitos, mais de 210
milhões de pessoas habitam o Brasil. Nossa força, como também nossas
dificuldades se ligam ao tamanho dessa população: somos muitos, diferentes e
desiguais. Não me refiro à desigualdade provinda da diversidade, que nos
enriquece, mas da que mantém na pobreza boa parte dos nossos conterrâneos. Esta
é outra fonte de nossas angústias: como envolver num destino comum, de
prosperidade e bem-estar, tanta gente social, cultural e economicamente
desigual? Se há algo a admirar nos Estados Unidos é que, como nação, e apesar
de existirem as mesmas, e até maiores, diversidades e confrontos entre seus
habitantes, eles conseguiram criar e transmitir o sentimento de que “estão
juntos”. A crença nos valores da pessoa humana, da democracia e da liberdade,
que a Constituição americana expressa, serviu de cimento para que os Estados
Unidos avançassem.
Precisamos de algo semelhante. Um dos caminhos é o da
educação. Enquanto tive poder de decisão, pendi para ampliar a inclusão dos
jovens na pré-escola e no ensino fundamental. Não porque descreia da
importância do ensino secundário e do superior (nem poderia, dada minha
vivência como professor), mas porque nos dias de hoje quem é bom de verdade
avança, mesmo que sozinho, e se torna “global”. Porém o que conta para a
formação nacional é a média, e não a ponta de excelência. E a média não avança
se a base da pirâmide não for ampla e sólida.
Até que ponto se conseguiu avançar?
Em certos setores, bastante: nos segmentos produtivos nos
quais fomos capazes de introduzir ciência e tecnologia. Assim aconteceu
especialmente na agricultura, que desde o passado se apoiou na tecnologia. O
Instituto Agronômico de Campinas exemplifica bem o que ocorreu com a produção
cafeeira. Por trás de cada produto em que a agricultura avançou sempre houve o
apoio de alguma instituição de fomento e pesquisa.
Mesmo na indústria houve esforços consistentes no
desenvolvimento de uma indústria de base moderna (aço, petroquímica) e na
produção de bens de transporte tão sofisticados quanto aviões. A indústria
extrativista, que era pouco eficiente, se agigantou (basta ver o que aconteceu
com o petróleo). E tudo isso requereu melhorias na infraestrutura.
No mundo contemporâneo, a tradução de ciência em tecnologia
se acelerou. E o Brasil tem mostrado dificuldade de acompanhar essa aceleração,
o que tende a aumentar a distância entre nós e os países mais avançados,
limitando as nossas possibilidades de desenvolvimento.
É essa a grande preocupação quanto a nosso futuro. Pouco se
fez em algumas das áreas que mais avançam na era contemporânea: robótica,
inteligência artificial, machine learning, todo um conjunto de tecnologias
características da chamada indústria 4.0.
É pena ver o governo atual mergulhado em crenças atrasadas
que podem prejudicar no largo prazo o nosso destino como nação. Se, em vez de
namorar o criacionismo e o “terra-planismo” – uma quase caricatura –, os que
nos governam acreditassem mais na ciência, na diversidade e na liberdade; se,
em vez de guerrear contra fantasmas (como o “globalismo” ou a penetração
“gigantesca” do “marxismo cultural”), os que se ocupam da educação, da ciência
e da tecnologia no Brasil voltassem sua vista para observar como se dá a
competição entre as grandes potências e dedicassem mais atenção à base
científico-tecnológica requerida para desenvolvimento de um país moderno, democrático
e que preza a liberdade, estaríamos mais seguros de que nossas inquietações,
com o tempo, encontrarão solução.
Espero que encontrem, pois os governos passam e as nações
permanecem.
*Sociólogo, foi presidente da República

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