As eleições nos Estados Unidos serão parâmetro para medir a
competitividade do discurso de esquerda, ou progressista, ancorado em teses 1)
identitárias, 2) ditas globalistas e 3) voltadas a lançar os sacrifícios
econômicos também nas costas dos ricos. Uns mais para cá, outros para lá,
qualquer desafiante democrata de Donald Trump vai acabar abraçando algum
conjunto de propostas ancorado nisso. Já o incumbent só depende de convencer
que o capitalismo funciona.
E Trump está sobrevivendo à pressão do establishment liberal
e da imprensa pró-democrata porque nos EUA o capitalismo está num bom momento.
Os Estados Unidos atingiram na prática o pleno emprego, e em situações assim é
muito difícil derrubar, nas urnas ou no braço, o candidato sentado na cadeira.
Como será difícil no Brasil derrotar Jair Bolsonaro se Paulo Guedes conseguir
operar o milagre de até 2022 baixar o desemprego para em torno de 6 ou 7%.
E aqui nunca um presidente perdeu a reeleição.
Mas, cuidado. Não é assim mecânico. Tabus existem para serem
quebrados. A explosão da rua em 2013 se deu com desemprego baixo. Ali
transbordou algo nascido da chamada frustração de expectativas. O PIB começava
a perder fôlego e a inflação voltava a ficar inquieta. A boca do jacaré (as
duas curvas) começava a fechar, e o mal-estar potencial foi habilmente
aproveitado pelos pescadores de águas turvas, no vocabulário do presidente
Ernesto Geisel (1974-79).
O Chile é outro exemplo de que tudo pode desandar mesmo
quando as coisas vão bem, segundo o senso comum. Ali o problema parece não ser
tanto a desigualdade, mas a injustiça. A ortodoxia sem contrapesos fez a
direita subestimar a necessidade de uma mínima proteção estatal/social aos
pobres, aos ditos excluídos e aos velhos. Deu no que deu. O Chile tem uma
chance de canalizar o mal-estar para soluções institucionais, pela
Constituinte. Vai aproveitar?
A explosão social costuma vir antes da ruptura política. No
Brasil a ruptura já aconteceu em 2018, também como resultado de 2013, que
depois produziu 2015/16. Daí uma certa modorra, mesmo com a escassez de
resultados. O governo Bolsonaro ainda tem um tempo antes de ser fortemente
cobrado pelo povão. Para a oposição, portanto, a etapa ainda é defensiva, com
foco na redução de danos enquanto espera a hora de tentar virar o jogo.
Mas a boa defesa sempre embute a preparação do ataque, como
ensinam os mestres do futebol. E, já que não dá para saber que fagulha vai incendiar
a pradaria, o negócio é ir garimpando em todos os temas disponíveis. É o que
faz a oposição, também ajudada pelas bolas que o governo e o presidente
levantam todo dia, às vezes mais de uma vez por dia. E, em meio à fumaça,
sempre é útil tentar enxergar, afinal, de onde virá a esperada oportunidade.
*
Vale a pena prestar atenção em como o Congresso vai reagir à
suspensão monocrática do juiz de garantias. Vale a pena observar se o
funcionalismo público terá poder de fogo para enfrentar a reforma administrativa.
E vale muito a pena começar a olhar para as eleições municipais. Os atritos do
presidente com os governadores vão valorizar algumas delas que em princípio
estariam em segundo plano. Como São Luís, Salvador e Porto Alegre.
*Alon Feuerwerker é jornalista e analista político/FSB
Comunicação

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