Na disputa com a Rainha Vermelha, é preciso correr para
ficar no mesmo lugar. Essa imagem fecunda inventada por Lewis Carroll em “Alice
através do Espelho” tem sido adaptada a outros fenômenos.
Foi reativada na mais
recente obra de Daron Acemoglu e James Robinson, “The Narrow Corridor”
(o corredor estreito), para ilustrar a dinâmica que assegura o equilíbrio entre
a sociedade forte e o Estado capaz.
A marcha da evolução das espécies também já foi descrita
por analogia
à disparada inútil de Alice. Se um predador fica mais letal, acaba por
estimular nas presas a seleção de atributos de defesa mais eficazes.
Na Guerra Fria, a escalada
armamentista em um flanco acionava o incremento bélico no outro, e
assim a relação entre ambos se mantinha.
Contrastada com a situação da política brasileira dos dias
de hoje, a alegoria leva a indagar se o bolsonarismo, que conquistou um grande
poder de vocalização na Presidência, estaria ele próprio, como se fosse um
vetor de pressão adaptativa, moldando seus adversários, seus críticos e o
próprio campo de jogo.
Falanges governistas desprezam toda mediação, institucional
ou psíquica, que se coloque entre o desejo primitivo, de um lado, e a sua
enunciação, do outro. Põem-se com frequência a ofender, a discriminar e a
difundir palavrões e preconceitos.
Eis que surge no outro polo gente a abraçar as mesmas armas
da ofensa, dos termos chulos e das generalizações preconceituosas a título de
castigar o bolsonarismo. O que sobra do feminismo, e do pacto civilizatório,
quando Damares Alves e Regina Duarte são tratadas a pedradas?
Como fica o clamor de que se restitua o respeito ao
exercício do governo quando a obscenidade que vem de lá é devolvida do lado de
cá para chocar no atacado quem o apoia?
Bolsonaro, que não ganha uma no Congresso e no Supremo e dá
mostras reiteradas de incompetência gerencial, parece que vai conquistando
pontos no terreno da linguagem.
O insulto de todos contra todos, afinal, é a utopia da turma
no poder.
Vinicius Mota
Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É
mestre em sociologia pela USP.

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