Na arena política, o País experimenta uma carência que
descora a democracia e empalidece o horizonte nacional. Há muito o Brasil não
vem sendo capaz de renovar substancialmente o conjunto de suas lideranças. Na
superação dessa comprometedora falha republicana se encontra exatamente uma das
melhores chances de promovermos um outro tempo para a Nação, distante dos erros
do passado, antenado nas questões do presente e conectado às oportunidades do
futuro.
Há décadas o País atravessa um deserto quanto ao surgimento
de líderes que inspirem, pautem e ensejem o novo, a inovação e a vanguarda em
termos socioeconômicos e político-culturais. Uma demanda que, se não bastasse o
acúmulo gigantesco de dívidas históricas quanto à prosperidade compartilhada, é
radicalmente potencializada pelo terremoto político, tecnológico e comportamental
que redesenha o planeta sem forma nem esboço.
O Brasil preparou muita gente de todas as posições políticas
no entorno de 1964. Depois veio o vácuo instaurado pela ditadura militar. Com a
redemocratização o País voltou a formar lideranças em todos os campos do
pensamento político – é daí que venho, meu treinamento foi na luta pela volta
das liberdades. Nesse meio tempo se instalou um vazio quanto ao surgimento de
líderes políticos.
As motivações desse hiato podem ser inúmeras, desde o
tsunami sociotécnico e cultural que varre o planeta, passando pela ocorrência
de tormentosos escândalos de corrupção mundo afora, até o ataque ideológico à
política democrático-republicana como via de se projetar e constituir a
dignidade humana sob os paradigmas da liberdade, igualdade, fraternidade,
diversidade e sustentabilidade.
Em meio a essa conjuntura planetária, que dialoga
perfeitamente com a nossa realidade, uma questão nacional deve ser destacada na
produção desse deserto de novas lideranças: um país que tem mais de 30 partidos
não tem representação partidária. Só uma efetiva reforma do sistema político
promoverá mudanças que possam dar uma direção racional e programaticamente
assertiva à vida político-partidária no País, contribuindo até para que os
próprios partidos retomem a função de formar lideranças – tarefa que não é sua
exclusividade, mas é um de suas mais fortes razões de existir.
Nessa cena desoladora, onde vicejariam as novas lideranças
políticas? No vácuo das agremiações partidárias, mas não em sua substituição,
obviamente, encontram-se movimentos cívicos a dar vazão à demanda por formação
de líderes. Temos o RenovaBr, de que sou conselheiro, como parte de minhas
atividades voluntárias, o Livres, o Raps. Esses e outros exemplos são
importantes iniciativas a abrir espaço a uma meninada arejada,
independentemente se à direita, à esquerda ou ao centro do espectro político,
usando a velha linguagem.
O fundamental é que novas lideranças surjam, tenham boa
formação e estejam capacitadas a operar com os desafios e os propósitos da vida
política, habilitadas a debater ideias, conviver com a diferença, negociar,
construir consensos, etc. Não se nasce com as capacidades e habilidades da
liderança. Não é só questão de vocação. Boa parte é treinamento, aprende-se a fazer,
como já ensinou a Grécia clássica.
O RenovaBR foi fundado em outubro de 2017. Já em 2018 foram
4 mil inscritos, com 133 alunos formados. Dos participantes, foram 17 eleitos
(9 deputados federais, 7 estaduais, 1 senador). Em 2019 o movimento teve 31 mil
inscritos, com 1.400 alunos matriculados e 1.170 formados; 40% não tinham
filiação partidária e dentre os filiados havia representantes de 30 dos 33
partidos existentes hoje no Brasil. Dada a forte demanda, abrimos no início de
janeiro uma turma, com inscrições até este 7 de fevereiro.
“Arte de pensar as mudanças e torná-las efetivas.” O saudoso
geógrafo Milton Santos deixou-nos como um de seus mais importantes legados a
definitiva conceituação do que seja a política, considerando que a civilização
é um projeto em constante movimento, permanentemente desafiado pela conjuntura
socioeconômica, tecnológica e político-cultural.
E a política de verdade não se faz sem lideranças capazes de
inspirar e mobilizar a cidadania. Segundo o historiador Paul Johnson, a vida de
Winston Churchill passa ao menos cinco lições importantes sobre liderança:
pense sempre grande, nada substitui o trabalho árduo, nunca deixe que erros e
desastres o abatam, não desperdice energia com mesquinharias e, por fim, não
deixe que o ódio o domine, anulando o espaço para a alegria na vida.
Pode haver vários caminhos para pôr o País novamente no rumo
do desenvolvimento socioeconômico inclusivo e sustentável, mas parece
impossível vislumbrar novos horizontes sem a formação de uma nova geração de
líderes, algo indispensável à superação da aridez que vem assolando a política
nacional. O Brasil não merece e não pode ser refém de uma arcaica vida política
baseada em visões estreitas e ultrapassadas, quando não incivilizadas, de
mundo.
*Economista, presidente executivo Indústria Brasileira de
Árvores (IBÁ), membro do Conselho do Todos Pela Educação, foi governador do Espírito
Santo (2003-2010 e 2015-2018)]

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