O ação desagregadora do presidente Jair Bolsonaro torna-se
mais grave neste momento em que é necessário que o país tenha um rumo no
combate à pandemia do Covid-19. Bolsonaro toma decisões sem consultar seus
ministros mais afeitos aos problemas, como Paulo Guedes, da Economia, e Luiz
Henrique Mandetta, da Saúde, e provoca crises intestinas que se refletem em
decisões postergadas ou desencontradas.
Quando resolveu aumentar para R$ 600 o voucher para os
informais para não deixar que o presidente da Câmara Rodrigo Maia, que
propusera aumentar de R$ 200 para R$ 500, saísse como o grande benfeitor dos
pobres, Paulo Guedes não foi consultado.
Quando fez o pronunciamento defendendo o fim da quarentena
horizontal, também não falou com Mandetta. Paulo Guedes foi para o Rio depois
de conflitos com Bolsonaro sobre o montante de gastos na crise, situação
aparentemente superada como demonstra o vídeo que Guedes gravou, engajando-se
na política de Bolsonaro.
O ministro Luiz Henrique Mandetta está querendo se
equilibrar entre o lado técnico e o político, e só faz aumentar a incerteza a
respeito das diretrizes do governo. Ontem, em seu pronunciamento depois de uma
reunião no Palácio da Alvorada com o presidente Bolsonaro e outros ministros,
Mandetta não mudou nenhuma orientação, como exige sua equipe técnica, mas
acenou com mudanças a curto prazo, o que não parece viável.
Para agradar o presidente, voltou a defender a tese de
afrouxamento da quarentena, e chamou os meios de comunicação de “sórdidos”. Mas
desaconselhou as carreatas a favor da volta à normalidade, e não mudou a
politica vigente.
O clima de desobediência civil espraia-se pelo país, e as
ruas continuam vazias depois do pronunciamento estapafúrdio do presidente
Bolsonaro defendendo o fim do isolamento social prescrito por cientistas e pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) como o melhor meio de conter a disseminação
do novo coronavírus.
A Justiça impediu que continuasse a ser veiculado o vídeo,
produzido dentro do Palácio do Planalto, pedindo o fim do confinamento, e a
polícia proibiu carreatas previstas para ontem em diversos pontos do país.
Enquanto o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta se
encarrega da politicagem palaciana, seus técnicos reafirmam as recomendações
sanitárias, sem alterar a política de contenção da pandemia, segundo
declarações do secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos
Reis.
Ontem, o ministério da Saúde enviou para todos os
secretários estaduais recomendações que reforçam as medidas, como proibição de
aglomerações em shows, cultos, futebol, cinema e teatros. No dia anterior, o
presidente Bolsonaro defendera a volta dos jogos de futebol, com público
reduzido.
O documento traz medidas mais severas, e prevê o fechamento
das escolas e universidade até o fim de abril, podendo a recomendação ser
estendida a maio. Mandetta não desautorizou as diretrizes, mas disse que estão
em discussão.
Parece querer ganhar tempo com essa postura dúbia, na melhor
das hipóteses para organizar melhor o sistema de saude publica para enfrentar o
pico da crise, esperado para os próximos meses. Na hipótese mais cruel, está
apenas manobrando para continuar sob os holofotes.
Várias entidades nacionais estão conclamando à desobediência
civil, diante das evidências internacionais de que o melhor caminho científico
está sendo ignorado pelo presidente. CNBB, OAB, ABI, SBPC, Academia Brasileira
de Ciências soltaram uma nota conjunta defendendo o confinamento, e
classificando as atitudes do presidente Jair Bolsonaro de “campanha de
desinformação” e “grave ameaça à saude dos brasileiros”.
O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde
(Conass), Alberto Beltrame, afirmou que a entidade não apoia “qualquer recuo no
sentido de afrouxamento de isolamento, e sim uma transição na direção de sua
ampliação, na medida da necessidade”. Isso porque o mês de abril está sendo
considerado crucial para controlar a Covid-19.

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