O Brasil é uma democracia de massas, com um Estado ampliado.
O presidente da República é eleito pelo voto direto, secreto e universal, assim
como governadores e prefeitos, todos com atribuições bem definidas em sua
esfera de poder. Ninguém pode tudo. O Estado brasileiro é uma federação, na
qual a União, estados e municípios têm autonomia no exercício de seus
respectivos papéis. Um complexo de leis aprovadas pelo Congresso e interpretadas
pelo Judiciário limita o Executivo, em todos os níveis. Órgãos de controle,
fiscalização e coerção, subordinados aos três poderes, zelam para que as regras
do jogo sejam respeitadas, tanto pelos cidadãos quanto pelas autoridades.
O presidente Jair Bolsonaro tem dificuldades para operar
esse complexo institucional e se relacionar com seus representantes, o que
exige mais liderança do que autoridade formal, que é limitada. Essa é a causa
de conflitos que não deveriam existir na resolução de graves problemas
nacionais. O presidente da República prefere liderar e se legitimar pelas redes
sociais, que emulam com as instituições da democracia representativa e criam um
ambiente político de grande fluidez e volatilidade.
Bolsonaro tem uma concepção autoritária de poder, adquirida
na Academia Militar de Agulhas Negras, na época da ditadura militar. É uma
vertente do positivismo disseminado pela Escola Militar da Praia Vermelha, que
inspirou a República, o “florianismo”, o movimento tenentista, a Revolução de
1930, a Intentona de 1935, o Estado Novo e o golpe militar de 1964, além de uma
série de outras rebeliões e quarteladas. Parte do pressuposto de que cabe aos
militares tutelar a sociedade brasileira e exercer o papel de Poder Moderador,
extinto com o fim da monarquia.
Essa concepção vem de longe, mais precisamente das
intervenções militares ocorridas no período regencial, que tiveram um duplo
papel. De um lado, evitar a fragmentação territorial do Brasil; de outro,
preservar a escravidão, alicerce econômico da monarquia, a pretexto de que a
abolição desorganizaria a economia. Sua gênese é o período de grande
turbulência entre a abdicação de D. Pedro I e a posse de D. Pedro II no trono
do Brasil, ou seja, entre 1831 e 1840. Na Regência Trina (1831 a 1834) e na
Regência Una (1834 a 1840), se digladiavam Moderados (maioria, representavam a
elite e defendiam centralização), Restauradores (queriam a reunificação do
Império, com a volta de D. Pedro I) e Exaltados (lutavam pela descentralização
do poder).
Sístoles e diástoles
A oposição entre restauradores e exaltados de um lado e os regentes do outro torna o cenário político bastante delicado. A partir de 1833, a situação se agravou, com revoltas nas províncias: na Cabanagem (1835-1840), no Pará, os revoltosos declararam independência; na Sabinada (1837-1838), na Bahia, defendiam um regime republicano e federalista; na Balaiada (1838-1840), no Maranhão, defendiam a abolição; na Revolta do Malês (1835), na Bahia, a independência e um regime islâmico.
A oposição entre restauradores e exaltados de um lado e os regentes do outro torna o cenário político bastante delicado. A partir de 1833, a situação se agravou, com revoltas nas províncias: na Cabanagem (1835-1840), no Pará, os revoltosos declararam independência; na Sabinada (1837-1838), na Bahia, defendiam um regime republicano e federalista; na Balaiada (1838-1840), no Maranhão, defendiam a abolição; na Revolta do Malês (1835), na Bahia, a independência e um regime islâmico.
No Sul, a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos
(1835-1845) foi mais longa e duradoura, sendo deflagrada por conta de aumentos
de impostos. Em 20 de setembro de 1835, foi proclamada a República
Rio-Grandense, tendo como líder Bento Gonçalves, que governou a província em
1837. Com o comando de Giuseppe Garibaldi, proclamaram a República Juliana em
Santa Catarina. A revolta ultrapassou o período regencial e só foi finalizada
no segundo reinado, com a entrada em cena do Duque de Caxias no comando das
tropas imperiais. Um acordo com Bento Gonçalves, líder principal dos
revoltosos, pacificou o Sul do país. Garibaldi havia sido derrotado e voltara
para a Sardenha, de onde partiu para unificar a Itália.
Essa contradição entre centralização e descentralização, que
o general Golbery do Couto e Silva chamou de “sístole e diástole” (contração e
relaxamento dos ventrículos do coração, respectivamente), foi decisiva para os
ciclos autoritários no Brasil, tendo por ápice o Estado Novo de Getúlio Vargas,
após a Revolução de 1930, e a vigência do Ato Institucional nº 5, no regime
militar. O Estado Novo durou de 1937 a 1945 e sucedeu, portanto, as fases do
Governo Provisório (1930 a 1934) e do Governo Constitucional (1934 a 1937). A
característica principal do Estado Novo era o fato de a Constituição de 1937,
escrita por Francisco Campos, se inspirar no modelo nazifascista europeu, então
em voga à época. O regime militar repetiu o ciclo, acabando com as eleições
diretas para governadores e prefeitos, entre outras medidas, mas essa é uma
história mais conhecida.
O presidente Jair Bolsonaro está em choque como os demais
poderes, os governadores e os prefeitos e as autoridades da saúde pública, em
todos os níveis, pois opera na lógica da centralização do poder. Esse choque
nos coloca diante de três ameaças: o crescimento exponencial da epidemia de
coronavírus, a recessão profunda da economia, mesmo com as medidas adotadas até
agora, e o recrudescimento do viés golpista de setores da sociedade que sonham
com uma intervenção militar. A escalada de uma pandemia é um cenário perigoso,
que precisa será contido. Evolui por etapas: contágio comunitário, internações
hospitalares, aumento dos casos de morte assistida, caos hospitalar, mortes
desassistidas, colapso econômico, furtos, roubos, saques e execuções.
Democracia nenhuma resiste a uma escalada dessa ordem, sem sofrer um golpe de
estado ou mergulhar num ambiente de ruptura da coesão social e terror. Se
prevalecer a teoria da “gripezinha”e do “resfriadinho”, contra a política de
distanciamento social, a evolução da crise seguirá esse roteiro trágico. É a
teoria do caos.

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