Dizem que a cadeira é uma invenção dos antigos egípcios, que
adicionaram um encosto aos assentos. Faraós reinavam em cadeiras de madeira
dourada, adornadas com ébano e marfim. Daí em diante, o trono seria a
representação da ambição e do poder dos monarcas. Somente com a Revolução
Industrial e o capitalismo passaram a ser produzidas em série, como as cadeiras
Thonet, famosas pelo curvamento das madeiras, que foram as primeiras numeradas
e vendidas por catálogos. No começo do século passado, o ferro passou a ser
utilizado para reforçar as cadeiras, como no caso da Hil House de Charles R.
Mackintosh, em 1928. Logo surgiram peças mais arrojadas, como a cadeira
Wassily, de Marcel Breuer, inspirada nos tubos das bicicletas.
Com o modernismo, as escolas de Bauhaus e Milão passaram a
dar o tom na produção do mobiliário mais arrojado. As cadeiras do Palácio da
Alvorada, por exemplo, são peças autênticas do modernismo brasileiro,
especialmente desenhadas a pedido do arquiteto Oscar Niemeyer. Foram recuperadas
pouco antes de Jair Bolsonaro assumir o governo, por uma comissão cuja
curadoria ficou a cargo da própria designer dos sofás, poltronas e cadeiras.
Anna Maria Niemeyer cuidou pessoalmente da restauração e do posicionamento de
móveis, quadros, tapetes, estátuas e outras obras de arte do acervo, que
retornaram aos locais que ocupavam no projeto de interiores original, a partir
de rigorosa pesquisa. A primeira coisa que o presidente Jair Bolsonaro fez ao
chegar ao Alvorada foi mandar substituir as cadeiras vermelhas por cadeiras
azuis da grande mesa do Salão de Estado, com 18 lugares.
Com seis metros, base de jacarandá e latão e tampo de
pau-ferro, estava em péssimo estado quando foi reconstituída a sua base, com
polimento do metal dourado oxidado e a fabricação de um novo tampo. A despesa
de R$ 5 mil recuperou uma peça avaliada em R$ 300 mil, devido ao seu valor
artístico e histórico. No painel de madeira que reveste a maior parede do
ambiente, destaca-se uma tapeçaria assinada por Di Cavalcanti, cuja limpeza
havia removido 1kg de pó. A reforma foi realizada no governo de Michel Temer,
que assumiu a Presidência, mas preferiu continuar morando no Palácio do Jaburu,
que considerava mais aconchegante.
Essa visita ao mobiliário do Alvorada tem uma motivação política:
um comentário do ex-presidente José Sarney, durante uma entrevista ao
jornalista Roberto D’Ávila, na GloboNews: “A cadeira é maior do que o
presidente, não é ela que deve ser adaptar”, disse o veterano político
conservador. Sarney governou o Brasil num momento difícil, a transição à
democracia, enfrentando um período muito conturbado, com milhares de greves,
hiperinflação e uma Constituinte que estava acima de tudo, sob comando do líder
da derrotada campanha das Diretas Já, o deputado Ulysses Guimarães, presidente
do então PMDB.
Além disso, Sarney havia assumindo em razão da morte do
presidente Tancredo Neves, ou seja, como vice de um presidente eleito por via
indireta, embora com amplo respaldo político e social, mas que nem chegou a
tomar posse. Mesmo depois de encerrada sua longeva carreira parlamentar,
continua sendo uma espécie de oráculo dos cabeças brancas do MDB e do DEM,
porque se mantém lúcido e tem memória privilegiada, às vésperas de completar 90
anos, no próximo dia 24 de abril. A referência à cadeira foi a única crítica
velada que Sarney fez a Bolsonaro durante toda a entrevista. Disse que não
gosta de comentar a atuação de seus sucessores.
Imprudência
Nos bastidores, porém, Sarney sempre foi um interlocutor privilegiado, levado em conta no Congresso, sobretudo nos momentos de crise, como a que estamos enfrentando. Suas principais características são a prudência, a moderação e a capacidade de adaptação às circunstâncias. Esses não são o forte do presidente Jair Bolsonaro. Talvez a principal causa da deterioração do atual cenário político esteja sintetizada no breve comentário de Sarney: Bolsonaro não respeita a liturgia do cargo, se acha maior do que a cadeira que ocupa. Não se dá conta de que o simbolismo da liderança está muito mais no poder de articulação do presidente da República, quando conversa com alguém, do que na caneta cheia de tinta para assinar exonerações, nomeações e medidas provisórias.
Nos bastidores, porém, Sarney sempre foi um interlocutor privilegiado, levado em conta no Congresso, sobretudo nos momentos de crise, como a que estamos enfrentando. Suas principais características são a prudência, a moderação e a capacidade de adaptação às circunstâncias. Esses não são o forte do presidente Jair Bolsonaro. Talvez a principal causa da deterioração do atual cenário político esteja sintetizada no breve comentário de Sarney: Bolsonaro não respeita a liturgia do cargo, se acha maior do que a cadeira que ocupa. Não se dá conta de que o simbolismo da liderança está muito mais no poder de articulação do presidente da República, quando conversa com alguém, do que na caneta cheia de tinta para assinar exonerações, nomeações e medidas provisórias.
A articulação transborda para os demais poderes e níveis de
governo, enquanto a caneta se limita às atribuições do governo federal, que
pode muito, mas não pode tudo que Bolsonaro gostaria. É óbvio que essa questão
comportamental reflete uma concepção de mundo e de exercício de poder, mas está
aquém das mudanças em curso no mundo e de uma pandemia que pôs tudo de pernas
para o ar. Ontem, pela primeira vez, num passeio pela Asa Norte de Brasília,
quando resolveu confraternizar com comerciantes e populares numa padaria,
Bolsonaro sentiu a chamada voz rouca das ruas criticando seu posicionamento em
relação à política de distanciamento social preconizada por Ministério da
Saúde, governadores e prefeitos.
Ao estimular as pessoas a saírem do isolamento e voltarem ao
trabalho, contrariando a orientação das autoridades estaduais e municipais,
Bolsonaro parece não levar em conta que todos os que procederam dessa maneira
estão enfrentando grandes dificuldades. É o caso de Donald Trump, nos Estados
Undos, em risco de inviabilizar sua própria reeleição. As nossas dificuldades
podem ser ainda maiores. Nas últimas 24 horas, houve 141 mortes e 1.930 casos
confirmados. Olhando os gráficos, parece que não estamos conseguindo achatar a
curva da epidemia na medida necessária para evitar o colapso do sistema de
saúde. Se isso ocorrer, Bolsonaro será o principal responsável perante a
opinião pública.

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