Sem poder sair de casa, percebo que não tenho para onde
fugir, senão encarar as verdades das quais fujo todos os dias, quando me
refugio em compras, em bares, em comida, em muitos compromissos, festas,
viagens, em relações que não servem para nada.
E, agora, presa em casa, começo a dar de cara com o que
tenho evitado ao longo desses muitos anos de vida: quem me tornei e as escolhas
que fiz até aqui.
Sem as urgências da minha rotina e sem a rua para me salvar
desse confronto, tenho driblado os encontros comigo com a mesma habilidade com
que misturava muitas bebidas e acordava sem ressaca alguma lá pelos meus 30 e
poucos anos.
Depois de uma idade, os sintomas de álcool em excesso
parecem uma mistura de dengue com chikungunya. Um amigo, vítima do novo coronavírus,
já disse que foi como a pior ressaca da vida. Lá na frente, quando tudo tiver
passado, e esperamos que sim, a gente talvez possa fazer essa analogia.
Evito os espelhos, passo correndo diante deles, já à procura
de um chão para varrer, uma louça para lavar, um armário para limpar, para não
ter que me encarar e responder a inevitável questão: o que fiz da minha vida?
Limpar a própria privada, desespero da maioria do
quarenteners, virou minha desculpa favorita para adiar minha inquisição
particular. Mas os questionamentos brotam como a louça na pia da casa de uma
família com cinco membros. Será que não quero mesmo ter filhos? Penso nos meus
amigos.
Agradeço ter escolhido não ser mãe e agora engrossar a
estatística de homens e mulheres que, nas 24 horas que duram o dia, pensam umas
cinco vezes que talvez não tenha sido uma boa ideia.
Crianças são fofas e tal, sangue do meu sangue, mas sem
escola, babá, empregada, clube, aula de idiomas e de judô, talvez seja um saco
cuidar dessa coisinha fofa durante semanas, sem trégua, e ai que vontade de
abrir um vinho e maratonar uma série qualquer. Uma amiga teve coragem de dizer o
que talvez muitos pensem: amo meu filho, mas ele é um porre.
Mesmo assim, tenho pensado. Será que eu não deveria ter tido
filhos? E se eu morrer amanhã, vítima
dessa gripezinha que mata.
Não sobrará nada de mim, alguém para levar a minha história,
para contar como eu era, para sentir saudade. Sobrarão todos os vinhos e as
cervejas que comprei para mais uma festa que não deu tempo de dar, vários
perfumes que nunca usei e guardo para ocasiões especiais, ocasiões que talvez
nunca aconteçam, porque não sabemos como será daqui para frente.
Muitos livros com histórias que ainda não conheço e que
gostaria de ter tempo para desbravar, mas agora que tenho, escolho esvaziar as
estantes e limpar tudo para me ocupar com alguma coisa que não seja eu mesma. E
livros me fazem pensar e remetem suas histórias a mim, aos problemas que não
tenho, às escolhas que talvez devesse ter feito.
Tenho roupas com etiquetas nos armários, esperando uma
festa, o dia ideal. O que traz outra questão: por que compro tantas coisas, se
tenho sobrevivido com dois shorts, duas camisetas e uma camisa, nas últimas
três semanas? Por que todos esses pares de sapato, se uso sempre o mesmo tênis
e as mesmas Havaianas, e agora nem isso. Sem poder ir a lugar algum passo o
tempo todo descalça. E com os pés no chão e a vida pausada, me pego procurando
sentido em muitas coisas. Eu era feliz? Acho que sim, mas por que ainda sentia
que faltava tanto?
Tomei as decisões profissionais certas? Deveria ter ficado
mais naquela empresa? Engolido alguns sapos? Por que mesmo mudei de cidade se
gostava tanto de onde morava? Ahh sim, porque eu me entediava, pedia demissão,
terminava namoros, cortava o cabelo e seguia adiante, sem pensar muito. E agora
tenho pensado muito, me questionado e tenho medo do que a sinceridade das
respostas possa revelar.
Jogo água sanitária na privada, o cheiro forte irrita meus
olhos, me deixa enjoada, mas o que embrulha meu estômago são as perguntas.
Por que dormi em tantas camas, chorei dores desnecessárias,
sofri por tantas bobagens, deixei pessoas pelo caminho, não liguei de volta,
não pedi desculpas, não olhei para trás? Por que tive coragem para mudar tudo
tantas vezes, mas tenho sido covarde e não termino de escrever o livro que
comecei há anos?
Se amanhã, a vida pudesse voltar a ser perto do que foi um
dia, eu gostaria de viver a mesma vida, fazer as mesmas coisas, frequentar os
mesmos lugares, ter os mesmos amigos, ser a pessoa que tenho sido nos últimos
anos?
Três semanas de isolamento e já quero fugir de casa. E de
mim mesma.
Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

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