Um minidicionário biográfico do pandêmico
pandemônio político
Ben Jor, Jorge. Gênio brasileiro. Devido à peste, o
Copacabana Palace fechou as portas. Pela primeira vez em 97 anos o hotel está
sem um único hóspede. Exceto Ben Jor, que mora ali. Sinal que o Brasil tem
jeito, nem tudo está perdido.
Bolsonaro, Jair. Presidente da República e garoto-propaganda
da cloroquina, conhecido no meio militar como Cavalão. Assim como Incitatus,
Bucéfalo e Marengo, se notabilizou pela inteligência galopante.
C, FH. Estadista. Repetiu até enjoar que o PT montou um
sistema de assalto ao Estado para beneficiar empresários e se manter no poder.
Como era tudo verdade, até tremia de indignação com a roubalheira. Mas não
notou, tolinho, que o PSDB montara décadas antes, em 1998, um esquemão bem mais
eficaz.
Quem atestou isso foi a Ecovias. Sua delação premiada
escancarou que o Tucanistão paulista fraudou contratos, desviou verbas e
cacifou a eleição de Covas, Serra, Alckmin e de pencas de deputados. A empresa
devolverá R$ 650 milhões do seu conluio com os novos bandeirantes. O PSDB,
nada.
Cardoso, Fernando Henrique. Intelectual sestroso-dialético.
O pandemônio adiou o livro no qual explicaria por que o PT foi demonizado,
enquanto trombadões tucanos eram protegidos por Judiciário, Congresso e
potências mediáticas. Seu título: “Uma questão de classe”.
Carvalho, Olavo de. Agente secreto da República Popular da
China. Marxista cultural dissimulado, promoveu tal quizumba no
lúmpen-bolsonarismo que ele ateou fogo às vestes, provocando a implantação do
sino-lulopetismo no condomínio Vivendas da Barra.
Duarte, Regina. Primeira bruxa a confortar Macbozo.
Distribuía sorrisos mimosos entre os miasmas da peste e, dengosa, declamava:
“Mato porcão, masco ratão, engulo sapão, aspiro o pum do palhaço Mourão”.
Gibbon, Edward. Defendeu que figuras marginais expressam a
verdade de uma era na hora da debacle. Assim, celebrou Marco Aurélio n’“A
História do Declínio e Queda do Império Romano”, mas sublinhou que a casta
dominante era vil como Cômodo, um tipinho destrutivo, supersticioso e
vingativo. Vide Bolsonaro.
Gomes, Ciro. Duque de Sobral. Andava doido para ser o
Macduff de Macbozo, mas nasceu de ventre de mulher e, o que é pior, em
Pindamonhangaba.
Guedes, Paulo. Ideólogo de uma ideia só: ego. Como ficou de
bom tom evitar encontros de mais de meia dúzia, perdeu sua plateia —dois
assessores, um empresário, um gerente, um passante e a parasita que lhe servia
cafezinho. Na clandestinidade, seguiu firme na defesa dos ricos e ociosos.
Hasselmann, Joice. Segunda bruxa. Jogou-se em cima de
Macbozo para afogá-lo com lágrimas de crocodila. Mel é fel, fel é mel.
Jr., Neymar. Ponta de lança do time de celebridades
bilionárias. Doou R$ 5 milhões às vítimas da Covid-19; seu salário no PSG é
estimado em R$ 50 milhões; recebe R$3 milhões para pôr um post no Instagram.
Iscariotes, Judas. Traidor. O que farão Antonio Palocci e
João Santana na Páscoa?
Kalil, Roberto. Autocognominado Médico dos Famosos. Foi
infectado e medicou a si mesmo —afinal, é famoso por tabela. Tomou cloroquina
e, como o remédio não foi testado, admitiu não saber se foi ele que o curou.
Poderia ter recorrido a João de Deus.
Macbozo, Lady. Primeira-dama. Tempestade e trovões na
charneca brasiliense. No palácio, Lady Macbozo vê o rei se acercar, qual uma
enguia, de uma caixa com pílulas azuis. Lança o repto colérico:
“Nã, nã, nã nã, nã, Jair. Só quando der um golpe”.
“Nã, nã, nã nã, nã, Jair. Só quando der um golpe”.
Mandetta, Luiz Henrique. Ortopedista e trapezista. Dava
piruetas conforme a música, mas preferia a sertaneja: fez lives com Marília
Mendonça e Jorge e Mateus. Seu hit foi o xaxado sabujo “Quem Comanda Esse Time
É o Presidente Bolsonaro”. Lançou a moda do colete. Não pegou.
Mascagni, Pietro. Compositor de segunda linha, excessivo e
chegado a uma pieguice. Para piorar, fascista. Contudo, sua única ópera ainda
representada, “Cavaleria Rusticana”, trilha-sonora da Páscoa, é extraordinária.
O diabo é explicar por quê. Tem algo a ver com morte.
Amanhã, domingo da ressureição, Andrea Bocelli cantará uma
ária da “Cavaleria” no Duomo de Milão, devidamente vazio. Haverá transmissão ao
vivo pela internet. Pode ser umas. Ou então escutar a gravação com Maria Callas
como Santuzza: “Inneggiamo, il Signor non è morto”.
Paschoal, Janaina. Terceira bruxa de Macbozo. Luz del Fuego
da extrema direita, desconhecia a existência do pente. De olho numa futura
boquinha, rogou uma praga contra o seu ídolo: “Tambor! Tambor! Eis Macbozo, o
perdedor!”.
Mario Sergio Conti
Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto".

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