No caso do ataque do coronavírus, é opinião geral que o
presidente Jair Bolsonaro (sem partido, RJ) está apostando contra o país que
jurou defender quando foi eleito. A parte mais visível da sua aposta é a
tentativa diária de sabotar o trabalho do seu ministro da Saúde, o médico Luiz
Henrique Mandetta. O ministro segue o manual da Organização Mundial da Saúde (OMS),
que recomenda o isolamento social, o “fica em casa”, para frear a expansão do
vírus. Bolsonaro prega a flexibilização dessa regra. Para entendermos a aposta
do presidente, é preciso olhar quem são as pessoas que fazem parte do seu
círculo pessoal e de trabalho. Esse grupo de pessoas, incluindo o presidente,
só sobrevive se houver confronto, como eu disse no post “Bolsonaro
foi à guerra contra o coronavírus pelas manchetes dos jornais”.
Para facilitar a nossa conversa sobre as pessoas que cercam
o presidente, vamos usar o linguajar dos colegas repórteres que fazem a
cobertura do turfe: Bolsonaro era um “azarão” nas eleições presidenciais de
2018, que acabou ganhando. E as pessoas que apostaram nele agora vão
sacrificá-lo, se necessário, para tirar o que investiram. Para quem não entende
de corrida de cavalo, um esporte muito popular no Rio Grande do Sul, “azarão” é
o cavalo que sempre chega em último nas carreiras. Um dia, por um somatório de
fatores, ele ganha. Começamos pelos maiores apostadores: os três filhos do
presidente, que são parlamentares. Eduardo, 35 anos, deputado federal por São
Paulo, Carlos, 37, vereador na cidade do Rio de Janeiro, e Flávio, 38, senador
do Rio. Até a eleição do pai, eles eram conhecidos apenas dos seus eleitores
tradicionais. Trabalharam muito, principalmente Carlos, pela vitória nas
eleições. Em 29 de novembro de 2018, publiquei o post “Ser
filho do Bolsonaro virou cargo de ministro no governo?”. Na montagem do
governo, eles já demonstravam que seriam os olhos, os ouvidos e a mente do
presidente eleito.
Para manter o monopólio sobre o pai, os filhos precisam de
ministros submissos. Não é por outro motivo que ministérios importantes são
ocupados por titulares exóticos, como Ernesto Araújo, das Relações Exteriores,
Abraham Weintraub, da Educação, Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Damares
Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Eles e outros que ocupam
cargos de segundo escalão fazem tudo o que os filhos do presidente pedem para
continuar ministros. Há uma curiosidade aqui. Por que os deputados federais
gaúchos Onyx Lorenzoni (DEM), atual ministro da Cidadania, e Osmar Terra (MDB)
resolveram enterrar as suas carreiras políticas se submetendo ao comando dos
filhos do presidente? Eles não são ingênuos. Portanto, devem estar vendo alguma
coisa no fim do arco-íris que nós, repórteres, ainda não descobrimos.
Hoje, há três ministros no governo sobre os quais os filhos
de Bolsonaro não têm influência – mas não deixam de atirar pedras no telhado
deles: Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, Paulo Guedes, da Economia,
e Mandetta, da Saúde. São os três que mantêm o governo funcionando. O
rompimento de Bolsonaro com Mandetta vai lhe custar o apoio e o dinheiro do
agronegócio. Aliás, o silêncio da ministra da Agricultura e Abastecimento,
Tereza Cristina, no caso do seu colega da Saúde, é um fato que nós, repórteres,
estamos deixando passar batido. Ela é do mesmo estado que seu colega, Mato
Grosso do Sul. É produtora rural e sabe o que representa o rompimento de
Bolsonaro com o governador de Goiás, o médico Ronaldo Caiado, que foi quem
indicou Mandetta para o cargo. Caiado é ex-dirigente da União Democrática
Ruralista (UDR). Tem uma liderança muito forte no agronegócio.
No fim de semana, existia uma conversa muito forte nas redes
sociais da América do Sul sobre os generais que fazem parte do governo
Bolsonaro. Falam que eles foram chamados pela cúpula das Forças Armadas para
uma conversa sobre o atoleiro político no qual o atual governo se meteu. Aqui,
há uma questão que precisamos ficar atentos. Os generais de Bolsonaro e os parlamentares
que estão ao seu lado têm uma visão política do presidente da República. Os
filhos dele e os que os seguem têm outra visão: Bolsonaro é uma marca, como se
fosse um produto. Como é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. E, para
sobreviver, uma marca tem que estar sempre em alta. Não importa o custo. É
simples assim.
Carlos Wagner é repórter.

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