Jair Messias Bolsonaro já não governa o País. Está a reboque
das decisões. Tutelado por forças institucionais, inclusive militares, que
determinam a ele o que e como fazer — alinhamento a governadores, foco nas
medidas econômicas e menos estardalhaço circense, essa última orientação
difícil de cumprir dada sua natural vocação ao papel de palerma descompensado.
Não são meros conselhos, mas alertas que ele vem recebendo agora diariamente,
sob pena de ser apeado da cadeira o quanto antes. Congresso, Judiciário,
governadores, prefeitos, OMS, políticos em geral, além das Forças Armadas, já
iniciaram uma reação em cadeia contra o Planalto. O vice-presidente, general
Hamilton Mourão, habilitou-se ao papel de bombeiro e se credencia, cada dia
mais, à condição de líder no comando. Em clara reprovação às palavras de ordem
do capitão, alinhou-se àqueles que rebatem em público os desatinos do chefe. O
ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello encaminhou à Procuradoria-Geral
da República (PGR) pedido de afastamento de Bolsonaro. Sua petição, protocolada
na Corte no último dia 25, vem se somar a outros cinco requerimentos no mesmo
sentido. No Parlamento, o impedimento do chefe da Nação, por atos e palavras que
caracterizam infrações em série à “lei de responsabilidade social”, virou voz
corrente. Trata-se agora de acertar quando e como fazê-lo. A preservação da
democracia é o pilar que sustenta o movimento. Fecha-se o cerco contra a
desordem voluntariosa de Messias. É preciso resgatar a estabilidade maculada
por quem tem apostado na ruptura e no confronto — inclusive com integrantes e
subordinados do próprio governo — para buscar soluções autoritárias. Jair
Bolsonaro, que nunca deixou de flertar com a ditadura, elogiar notórios
torturadores e adotar a tática de converter em inimigos, traidores, qualquer um
que atravesse o seu caminho, persegue, é fato, o inconfessável projeto de poder
totalitário. Indagado recentemente em um programa de televisão se estaria disposto
a dar um golpe, evitou negar de maneira categórica e saiu-se com o enigmático
enunciado do “quem quer dar um golpe não vai falar que vai dar”. Ao contrariar
a unanimidade nacional e do planeta no monumental desafio do confinamento para
conter a doença, e assim minimizar perdas humanas e econômicas, Bolsonaro o faz
de caso pensado. Aposta no caos para consagrar o maquiavélico ardil de
projetar-se como salvador de uma pátria em ruínas.
Ao final e ao cabo, imagina jogar no colo dos adversários a
culpa pela recessão que avança a galope no lombo da covid-19. Tenha certeza:
ele não está preocupado com a normalidade do mercado, muito menos com a ameaça
à vida de quem quer que seja. Ao falar em interromper o isolamento por decreto
(e foi alertado pela Justiça que não conseguiria levar adiante a ideia) e
alegar que “infelizmente, algumas mortes ocorrerão, paciência!”, o mito das
falanges milicianas move peças do tabuleiro, à sua maneira trôpega, levado tão
somente pela obsessão cega da reeleição. Irresponsabilidade é a palavra que lhe
cabe. Declarações como a de uma “mera gripezinha, que brevemente passará” ou a
de que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque”,
superam a classificação de arroubos disparados ao léu. Fazem parte de um
mosaico de demagogias, um script calculado, onde o argumento econômico serve
apenas de instrumento para concretizar as ambições pessoais. Seriam os “moleques”
as autoridades que, teoricamente, atrapalham o roteiro de estultices para
asseverar 2022. Já o “homem”, ele, atleta e mito, destemido, sai às ruas,
desrespeitando as regras e pondo em ameaça os próprios seguidores, porque é o
herói redentor blindado, capaz de denunciar a existência de uma “histeria”, sem
apresentar um único argumento técnico para ir na contramão das medidas tomadas
no planeta. Dias atrás, na manobra mais arriscada, antes mesmo do desastrado
pronunciamento em cadeia de rádio e TV onde incitava o rompimento da
quarentena, Bolsonaro tentou cerrar fileiras com a caserna para conquistar,
quem sabe, o aval a uma perigosa aventura de atropelo à Constituição.
Foi pensando nisso que falou em “flexibilizar” as regras de
isolamento. Adiantando-se a ele, e assim sinalizando que os quartéis não
compactuariam com a quebra da ordem, o comandante Edson Leal Pujol postou um
vídeo nas redes sociais do Exército falando que os militares estavam a serviço
da mobilização nacional contra o coronavírus. Foi um balde de água fria no
intento do capitão. Em poucas horas, o vídeo alcançava 500 mil visualizações,
em especial entre membros da tropa, formada por recrutas de baixa renda
preocupados em atender as medidas sanitárias deliberadas pelas autoridades. Bolsonaro
não se deu por vencido e, naquela mesma noite da divulgação do vídeo de Pujol,
insistiu em aparecer fazendo o comunicado elaborado com a ajuda dos filhos. Os
ministros militares do Palácio do Planalto desaconselharam o pronunciamento em
tom provocativo e evitaram participar da sua feitura e gravação. O presidente
não recuou. Foi adiante, não medindo consequências. Novamente, por opção
própria, ficava mais uma vez sozinho e ridicularizado nos devaneios. Diante de
tantos tropeços, hoje ele parece governar apenas no seu ambiente digital,
habitado pela corriola de seguidores fanáticos. Ao tencionar relações com todos
os demais poderes, aliados e mesmo apoiadores, perdeu rapidamente sustentação e
não é levado a sério em nenhum círculo de Brasília. Governa como rainha da
Inglaterra, sem influência e com baixa capacidade decisória. Tentou uma
derradeira empreitada com uma campanha publicitária de mau gosto, elaborada às
pressas pela Secom, na qual entoava o mantra de “O Brasil Não Pode Parar”.
Queimou mais de R$ 4,8 milhões nas esquetes – no momento em que a estrutura
médico/hospitalar necessita vitalmente de recursos — e buscou distribuí-los nas
redes sociais, via robôs.
Foi logo tolhido pela Justiça, que proibiu a circulação da
campanha. Humilhação maior ainda estava por vir. O Facebook, o Instagram e o
Twitter, em simultâneo, decidiram retirar do ar, como forma de censura, alguns
de seus posts, por distorcerem orientações oficiais de segurança sanitária
consagradas no mundo. O capitão acabou por virar uma ameaça. O sisudo jornal
britânico “The Guardian” apontou em editorial que Bolsonaro representa
atualmente um “perigo para os brasileiros”. A revista americana “The Atlantic”
o classificou como “o líder mundial da negação do coronavírus”. O semanário
“The Economist” deu a ele a alcunha de “Bolsonero”, em alusão ao polêmico
imperador que mandou incendiar Roma, enquanto o “The Washington Post” pediu
abertamente em artigo o seu impeachment. Virar chacota global não parece ser um
problema. Não pense que ele se incomoda com isso. No estilo tosco e
desenfreado, que lhe é característico, deve estar até achando boa a
notoriedade, mesmo que na condição de pária do mundo. Desalento e vergonha
destruindo a autoestima nacional. O mais grave no espetáculo bizarro de
desvarios do mandatário é que ele, decerto, se converteu numa ameaça pública,
afrontando às orientações de especialistas de saúde e pondo em risco à vida
daqueles que eventualmente pensam em seguir os seus conselhos. Ao instigar a
desobediência civil contra o isolamento, Bolsonaro demonstrou que precisa ser
contido o quanto antes pelas forças republicanas. Extrapola os poderes de um
chefe de Estado, se comporta como líder de seita e seus crimes atravessam a
esfera política para alcançar o plano de atentado à humanidade. Credenciais
mais do que suficientes para encarar não apenas um processo de impeachment, já
dado como inevitável mais cedo ou mais tarde, como também ações nas cortes
internacionais, de Haia e mesmo da ONU, onde já vem sendo denunciado. A
expectativa é que, daqui por diante, um núcleo de governabilidade seja montado
para a travessia desse período turbulento, enquanto se aguarda a sua retirada.

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