Números são um problema. Eles insistem em expor a realidade,
em particular, quando queremos negá-la. Na atual crise de saúde tem sido assim.
O Brasil se aproxima da triste marca de 65 mil mortos pela covid-19. A
epidemia, ao mesmo tempo que amaina em alguns Estados, avança de forma
impiedosa em outros, revelando a verdade: não se trata apenas de uma
“gripezinha”. Haveremos de conviver com ela por muito tempo ainda e a
administração dessa convivência será determinante no nosso futuro.
Na economia, os números também assustam. A atividade
interrompida, por receio da contaminação ou por medidas de restrição, mostra
seus reflexos nos números do trimestre que se encerrou. A algum vigor dos
primeiros meses do ano, contrapõem-se a realidade do desemprego e da quebra de
empresas pequenas, médias e grandes. Trabalhadores formais sofrem com o
fechamento de vagas. Os informais sofrem duas vezes mais, conforme cálculos do
professor Hélio Zylberstajn, publicado em matéria do Estadão de ontem. Como
consequência do enfraquecimento do mercado de trabalho e do aumento dos pedidos
de recuperação e falência, o mercado de crédito reage com volumes menores e
custos maiores. Afinal, o risco aumentou.
No campo fiscal, quer seja pelo lado do gasto (aumento),
quer seja pelo lado do Produto Interno Bruto – PIB (queda), as perspectivas
para a relação dívida/PIB não são nada alvissareiras. Devemos beirar os 100%
neste ano, renovando a tendência de crescimento pela próxima década segundo a
Instituição Fiscal Independente (IFI). Essa trajetória coloca pressão sobre
outro número: o juro básico. O ineditismo de uma taxa Selic baixa pode estar
comprometido por um descontrole fiscal que só não acontecerá se houver consenso
em torno de uma agenda de ajuste e responsabilidade fiscais.
Essa é a realidade. O desafio está em saber enfrentá-la e a
sabedoria em admiti-la, tanto no campo da saúde, quanto no da economia. Para
isso, a prioridade é, e continuará sendo, o controle da epidemia e a garantia
de atendimento de saúde aos cidadãos. Ao menos até que uma das aclamadas
vacinas nos salve. Na economia, assim como na saúde, não se pode esperar de
braços cruzados que também a “gripezinha” da recessão seja curada pelas
cloroquinas fiscais e monetárias. Aqui, nem o argumento da boa forma sobrevive.
Na saúde o governo federal já perdeu o pé – e o timing.
Coordenação de esforços, definição clara de protocolos, eficiência na
administração de distribuição de medicamentos, de equipamentos de proteção
individual (EPIs) e de ventiladores e a implementação de uma estratégia de
testagem maciça deveriam ter sido prioridades. Não foram. O negacionismo custou
e ainda custará vidas que à história caberá mostrar responsabilidades e
demonstrar o heroísmo de governadores e prefeitos que não cederam às falácias
federais.
Na economia, ao contrário, ainda há tempo. As prioridades
aqui são claras, os diagnósticos estão feitos e boa parte das propostas está
colocada. Assim como as emergenciais saíram do papel, há que se pensar agora
nas agendas estruturais de recuperação econômica e social. A começar pela
revisão da rede de proteção social, visando à redução da pobreza e ao apoio à
população da base da pirâmide. A epidemia escancarou aquela que é nossa
principal mazela e que deveria, a partir daqui, ser a prioridade primeira: a
redução da nossa vergonhosa desigualdade social.
Na sequência, e no mesmo tom, vem a reforma administrativa.
Melhorar a qualidade dos serviços públicos não é só melhorar a alocação de
recursos. Educação, saúde e segurança públicas de qualidade e maior eficiência
da máquina salvam vidas, geram oportunidades e aumentam a produtividade. Isso
ficou ainda mais claro agora que, infelizmente, tantas vidas foram perdidas e
tantos empregos ficaram pelo caminho pela ineficiência de processos
burocráticos, pela incapacidade de execução e monitoramento das políticas
desenhadas ou da falha em fazer o recurso chegar onde e a quem precisa. Há
ainda a reforma tributária, corrigindo a regressividade de uma taxação
perversa, buscando eficiência e eliminando tratamentos tributários
diferenciados e de efeitos distributivos indesejados. Além dessas grandes
reformas – e do inadiável atendimento à crise dos subnacionais, há um conjunto
de microrreformas voltadas ao ambiente de negócios, ao fortalecimento
institucional e de contratos e à redução do Estado via privatizações e
concessões que precisam avançar.
Não falta o que fazer, nem tampouco se ignora a direção. Mas
o negacionismo presidencial, essa forma escapista de ignorar a realidade, tem
nos feito perder tempo – e vidas. Fechar os olhos para os números da economia
equivale a negar as evidências. Tão negacionista – e irresponsável – quanto
vetar a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais públicos ou dizer que é
culpa dos governadores os números que aí estão, é acreditar que a economia vai
se recuperar sem que uma agenda clara de reformas seja colocada a público e
pactuada com o Congresso e com a sociedade.
*Economista e sócia da Consultoria Oliver Wyman.

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