Nas reuniões da esquerda brasileira é comum que as
discussões se polarizem entre os mais otimistas e os mais pessimistas. Há
vários tipos de otimistas/pessimistas: alguns têm opiniões históricas fortes e
graves. Abraçam uma visão cristalizada do país e, portanto, do que é a
sociedade brasileira.
Dividem-se em dois campos: os que estão mais próximos da
“povofilia” ou da “povofobia”. Os que se situam no campo da “povofobia” são
mais incrédulos. São mais descrentes, críticos e céticos sobre as
potencialidades da luta da classe trabalhadora. Não são menos socialistas, por
isso. Há toda uma corrente mais melancólica na tradição marxista que era
pessimista.
Aqueles que se situam no campo da “povofilia” têm mais
confiança, segurança ou esperança de que esse enorme, ainda que heterogêneo
proletariado, aliado às massas oprimidas, vai cumprir um papel revolucionário.
Ambas posições são legítimas, porque procuram fundamento em uma interpretação
da história do Brasil, e este debate não é conclusivo.
Mas não deveria contaminar a análise de conjuntura. São
níveis, planos, patamares de debate diferentes. Devemos, portanto, conversar
sobre o impressionismo político. Há três meses, justamente quando a conjuntura
começava a se deslocar para um maior isolamento de Bolsonaro, uma parcela da
esquerda estava convencida que o regime da Nova República já tinha sido
derrubado, e que um autogolpe era iminente.
Há dois meses, outra parcela defendia que Bolsonaro já
estava tutelado pelos militares e que, de alguma maneira, tinha se constituído
um novo governo em que a ala bolsonarista tinha cedido espaço à troika de
generais.
Há um mês, outra parcela estava convencida que a derrubada
de Bolsonaro era iminente, fosse pela iniciativa do STF, do Congresso ou de
ambos. Agora, muitos que abraçaram uma ou outra destas hipóteses, ou até as
três em sequência, estão convencidos que o governo Bolsonaro conquistou
estabilidade, e vai concluir o seu mandato.
A conjuntura política flutuou em diferentes momentos desde o
início da pandemia e da recessão econômica, evidentemente, mas não com tanta
intensidade. Existiam grãos de verdade nessas análises. Mas as quatro eram impressionistas,
e estavam erradas.
Não faltou, nessas três semanas de “Bolsonaro paz e amor” e
de “Frente ampla paz e amor”, quem até já concluiu que as massas populares
estão abatidas, prostradas, e apáticas diante da tragédia, e assistimos
desmoralizados à banalização do mal. Trabalhadores e jovens seriam incapazes de
se colocar em movimento quando sairmos do auge da pandemia.
Estas conclusões são insensatas. Ninguém sabe como estará o
humor dos trabalhadores e jovens em outubro. Pode ser exatamente o contrário.
Poderemos ver uma grande onda de mobilizações sob influência da esquerda.
Não há militância coletiva sem uma compreensão comum do que
fazer. O que fazer deve ser ditado por uma análise da conjuntura. Não é
prudente classificar análises como otimistas e pessimistas. O maior perigo na
interpretação da realidade é o impressionismo.
Impressionismo é uma forma de pensar. O impressionismo
retira conclusões apressadas sobre a conjuntura, porque prescinde do método. A
chave do método é o estudo das relações sociais e políticas de força. Deve ser
esgrimido com realismo. O marxismo é uma ferramenta que recomenda o máximo
rigor, portanto, a mínima contaminação pelas nossas ansiedades ou preferências.
Há análises mais ou menos erradas.
O impressionismo é uma ligeireza de análise centrada na
maximização do tempo do presente que sustenta opiniões rígidas e precipitadas.
É uma forma de interpretação dos acontecimentos que diminui a importância das
mediações, porque secundariza as contradições, favorece o desequilíbrio e
defende táticas ziguezagueantes.
Mas, sejamos honestos e sensatos. Somos todos, em maior ou
menor medida, diante das oscilações das conjunturas, impressionistas. Resistir
às pressões impressionistas é uma luta contra nós mesmos.
Há muitos perigos. O mais ingênuo deles é atribuir às massas
populares uma disposição revolucionária de luta que, neste momento, elas não
têm. A idealização imaginária de um estado de ânimo na juventude, ou qualquer
outro sujeito social, é uma projeção enganosa da vontade.
Mas o pior de todos os impressionismos é levar muito mais a
sério do que merece aquilo que as lideranças políticas da classe dominante
dizem. Os inimigos dissimulam e mentem. Eles agigantam as suas forças, e
diminuem as nossas.
Quem faz análise deve ser consciente do perigo de
enviezamento de sua hipótese. Deve aprender a desconfiar de seus sentimentos,
suas preferências, seus interesses. Os viezes que podem contaminar a análise
precisam ser eliminados. Todos precisamos de lentes que nos ajudem a corrigir nossas
miopias, ou filtros que nos ajudem a descartar o secundário do principal.
A questão central do método é uma análise objetiva das
posições de classe em conflito. Parece incontroverso que a maioria da burguesia
brasileira pressiona por uma maior governabilidade, portanto, colaboração entre
o governo federal e os governos estaduais diante da pandemia. Aqueles que como
Doria ensaiaram uma oposição institucional aos excessos de Bolsonaro serão,
também, atingidos pela devastação de uma abertura irresponsável. Estão
cometendo um erro político que será irreparável.
Em pleno auge de expansão ininterrupta da contaminação,
enquanto as famílias sofrem com a perspectiva de pelo menos 100 mil mortos em
agosto, e o fim do auxílio emergencial se anuncia para setembro, governadores
flexibilizam a quarentena, e reabrem as capitais. E agora que Bolsonaro foi
atingido, pessoalmente, pela doença que minimizou, ridicularizou, desprezou, se
descobrirá diminuído. A situação vai ficar muito mais grave.
Um relativo impasse transitório se mantém: nem Bolsonaro tem
forças para desafiar o cerco que os tribunais superiores estão armando, nem a
oposição de esquerda, sem as ruas, tem forças para desafiar o seu mandato.
Mas há uma dinâmica que se afirma. A tendência mais profunda
da conjuntura continua sendo de enfraquecimento do governo Bolsonaro. E o
bolsonarismo é uma corrente neofascista. Não deixará de mostrar os dentes antes
de ser derrotado.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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