Quem tem muitos candidatos a um ministério é porque não tem nenhum e é exatamente nesse impasse que o governo está, não em relação a um cargo qualquer, mas ao rico, estratégico, fundamental Ministério da Educação. Todas as frente de pressão – “ala ideológica”, “ala militar”, Centrão, evangélicos e empresários do setor – têm seus próprios nomes. O presidente Jair Bolsonaro não consegue se fixar em nenhum.
Motivos não faltam para a insegurança, depois de Vélez
Rodríguez, Abraham Weintraub e Carlos Alberto Decotelli. Nenhum nome parece
confiável e nenhum nome confiável aceita o abacaxi. MEC e Saúde têm os dois
maiores orçamentos da Esplanada dos Ministérios – R$ 95 bilhões e R$ 125,6
bilhões, respectivamente, em 2020. Logo, são alvo de aliados em geral e
bolsonaristas em particular. Para estes, 99% dos milhares dos quadros das duas
pastas são esquerdistas articulando a revolução comunista.
Assim, a prioridade não é uma política para Educação ou uma
ação estratégica de combate à pandemia da covid-19, mas, sim, “limpar a área” e
“acabar com o aparelhamento”, sufocando políticas tradicionais e, com elas, os
técnicos mais antigos, experientes e reconhecidos. Se há aparelhamento, seria
trocar um por outro.
Resultado: o MEC teve três ministros nomeados e nenhum
programa para os três níveis de ensino em um ano e meio de governo, enquanto a
Saúde enxotou seu primeiro time de médicos, inclusive sanitaristas e
epidemiologistas, em meio a milhares de mortes (mais de 65 mil até ontem) e
mais de um milhão de contaminados (1,6 milhão).
Não poderia dar certo Bolsonaro delegar a escolha do
ministro da Educação ao tal guru da Virgínia e aos filhos – que passam a
quilômetros da área acadêmica. No caso de Vélez, a surpresa foi ter sido
derrubado pelos próprios “olavistas” do MEC. No caso de Weintraub, foi que ele
era muito mais louco e perigoso do que se poderia imaginar.
Já Decotelli foi uma indicação bastante razoável da “ala
militar”, pois tinha experiência, títulos, interlocução com o setor. O perfil
era ótimo, pena que se revelou uma fraude. Reaberta, a sucessão virou uma arena
de digladiadores e o professor e empresário Renato Feder, duas vezes favorito,
antes e depois de Decotelli, achou prudente cair fora. Quem pode condená-lo por
isso?
Na Saúde, para que tirar os médicos? Para pôr três dezenas
de militares e um general da ativa como ministro interino, com uma única
função: bater continência cegamente na pandemia a uma política anticientífica e
ameaçadora que está numa única cabeça, a de Bolsonaro.
Assim, é o próprio Ministério da Saúde que rechaça o
isolamento social, reconhecido no mundo inteiro como a única “vacina” contra a
covid-19, e que adota a cloroquina, descartada por dezenas de trabalhos
científicos em diferentes pontos do planeta. Que médico, em sã consciência,
aceitaria ser tão imprudente e na contramão da Ciência?
O negacionismo e a guerra à racionalidade não param aí. A
novidade é que o presidente, que se recusa a usar máscara, maior aliada do
isolamento social, agora veta a obrigatoriedade de que os brasileiros a usem em
locais fechados, como lojas, escolas e igrejas, e acaba de vetar também em
presídios. Vai morrer muito mais gente… Às dezenas, às centenas ou, o mais
provável, aos milhares? A história dirá.
Mais calado, menos beligerante, Bolsonaro faz um favor ao seu governo e ao País, mas tem de nomear ministros à altura para Educação e Saúde e reavaliar a política externa e o Meio Ambiente. Com uma ressalva: assim com Vélez, Weintraub e o general Eduardo Pazuello, também Ernesto Araújo e Ricardo Salles são só paus-mandados. O dono das políticas – logo, o responsável pelos erros – é o próprio Bolsonaro.

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