Jair
Bolsonaro está com Covid-19.
Torço para que o quadro se agrave e ele morra. Nada pessoal.
Como
já escrevi aqui a propósito desse mesmo tema, embora ensinamentos
religiosos e éticas deontológicas preconizem que não devemos desejar mal ao
próximo, aqueles que abraçam éticas consequencialistas não estão tão amarrados
pela moral tradicional. É que, no consequencialismo, ações são valoradas pelos
resultados que produzem. O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele
advier um bem maior.
A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor
e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas
valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente
defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas
preservadas. Estamos?
No plano mais imediato, a ausência
de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a
epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer
num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista
do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos
óbitos. Detalhe irônico: são
justamente os eleitores do presidente a população mais afetada.
Bônus políticos não contabilizáveis em cadáveres incluem o
fim (ou ao menos a redução) das tensões institucionais e de tentativas de
esvaziamento de políticas ambientais, culturais, científicas etc.
Numa chave um pouco mais especulativa, dá para argumentar
que a morte, por Covid-19, do mais destacado líder mundial a negar a gravidade
da pandemia serviria como um “cautionary tale” de alcance global. Ficaria
muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso
e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta.
Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida.
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"

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