O governo comemorou, ontem, os resultados da arrecadação de
maio e junho, que indicam uma reação da economia. Os analistas do mercado
avaliam que o país já teria sido ejetado do fundo do poço. Em economia,
otimismo faz muita diferença; por isso mesmo, esse é o tipo de avaliação que
todo mundo torce para que seja verdadeira, exceto os adeptos do “quanto pior,
melhor”, que torcem para tudo dar errado. Segundo dados da Receita Federal, a
emissão de notas fiscais no mês de junho chegou a R$ 23,9 bilhões em vendas/dia,
o que representa um crescimento de 10% em relação a junho de 2019. Nas redes
sociais, o Palácio do Planalto comemorou, lançando uma campanha no estilo “pra
frente, Brasil”.
O aumento de arrecadação em maio (9,1%) e junho (15,6%)
coincide com um aumento da produção industrial de 7% em maio, depois de um
tombo acumulado de 26,3% em março e abril, o que já foi suficiente para os
analistas reverem as projeções para a recessão deste ano, reduzindo-as para
6,4%, quando se dizia que seria de 9% a 12%. O boletim Focus do Banco Central,
que avalia os humores do mercado financeiro, estimou a recessão em 6,5%. De
qualquer maneira, uma recessão dessa ordem não é para fritar bolinho. A rápida
adaptação dos setores de comércio e serviços ao home office e às vendas pela
internet, a dinâmica do agronegócio e a manutenção de certo nível das
atividades industriais, aliada à injeção de recursos no mercado por meio do
auxílio emergencial de R$ 600, nos últimos três meses, contribuíram para que a
economia não parasse.
Não se pode descartar o impacto do afrouxamento da política
de distanciamento social nesses resultados, ainda que o outro lado da moeda
seja o alto custo em termos de impacto no sistema hospitalar e no número de
mortes. O Brasil já tem mais de 65 mil mortes, sendo o segundo do mundo em
número de óbitos e infectados, com 1,6 milhão de casos confirmados, segundo a
Universidade Johns Hopkins, atrás apenas dos Estados Unidos. Isso representa
12% das mortes e 14% dos casos no planeta, com grande número de mortes por
milhão de habitantes: mais de 300. Com quase 700 mil casos de infecções pelo
novo coronavírus, a Índia é o país que mais se aproxima de nós, com 24 mil
novos casos nas últimas 24h. O número de mortes na Índia ainda é relativamente
baixo: 19,6 mil. Desde 1º de junho, porém, a epidemia cresceu exponencialmente
naquele país, por causa das medidas de relaxamento da quarentena. Mumbai, Nova
Déli e Madras, as principais cidades indianas, são os centros de propagação
exponencial da epidemia. Um templo da capital foi transformado em hospital de
campanha para 10 mil pessoas.
E la nave va
Enquanto uma parte da população corre do coronavírus e outra vai atrás do pão
de cada dia, o governo Bolsonaro continua sem ministro da Saúde: interino na
pasta, o general Eduardo Pazuello é um capacete sobre a cadeira. A “imunização
de rebanho” dispensa um ministro de verdade. A situação na Educação também é
caótica, pois o governo ainda não tem um ministro para a pasta. O cargo é alvo
de uma queda de braços entre os filhos de Bolsonaro, os militares e os partidos
do Centrão. São mais de 100 dias sem aulas, sendo que apenas 15 estados mantêm
efetivo controle sobre a frequência dos alunos, que é muito baixa. Como no
Sistema Unificado de Saúde (SUS), a pandemia também escancarou, na Educação, as
abissais desigualdades sociais existentes no Brasil.
Como na alegoria de Federico Fellini sobre a nau dos insensatos (a sátira de Sebastian Brant), e la nave va. Lembrei-me do filme por causa da morte do grande compositor e maestro Ennio Morricone (Era uma vez no Oeste), o favorito do diretor Sérgio Leoni. O compositor preferido de Fellini era Nino Rota, que morreu em abril de 1979. Em vez de chamar Morricone para fazer as músicas de sua obra-prima, Fellini optou por sua única trilha não-original. Deu à película um caráter de cortejo fúnebre, operístico, com personagens excêntricos como passageiros do navio Glória: matronas, palhaços, tenores, sopranos, pervertidos sexuais, uma equipe de jornalismo e um rinoceronte são embalados pela La Forza del Destino, de Giuseppe Verdi, e outras óperas, de Bellini, Tchaikovsky e Rossini. Diria Machado de Assis (Dom Casmurro), Deus criou o planeta para que Satanás encenasse a ópera. Com febre alta e muitas dores, o presidente Bolsonaro está com suspeita de Covid-19. Pode ser dengue.

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