As noites de quarentena são marcadas por sonhos. Quem conta
com eles para melhor se conhecer, acorda tentando recompor lances, faces,
atmosfera, interpretando, enfim.
Esse esforço ontológico se amplia no café da manhã, aurora
da dura realidade cotidiana: não importa quem eu seja, também sou brasileiro.
Os jornais dizem que brasileiros não podem entrar nos
Estados Unidos. Não podem entrar na Europa. Em tempos de pandemia, isto
significa que não soubemos cuidar da vida. Dizem também os jornais que 29
fundos de pensão ameaçam não investir no Brasil enquanto continuar o processo
de devastação da Amazônia. Isto quer dizer que não cuidamos dos nossos recursos
naturais, não nos importamos com a vida dos índios, das plantas e dos bichos.
Paulo Guedes disse que nossa imagem negativa é produzida
pela ação de alguns brasileiros. Esqueceu-se de um deles, Jair Bolsonaro. A
visão de mundo de Bolsonaro, sua política ambiental e seu desprezo pela
gravidade da pandemia são alguns dos fatores que arrasaram nosso prestígio no
exterior.
O Brasil sempre exalou vida, alegria, música exuberante e
talentosos intérpretes. O próprio Guedes e Bolsonaro participaram de um
espetáculo devastador para nossa imagem: uma live em que é tocada no acordeom a
“Ave Maria” de Schubert.
Isso correu mundo. Em Portugal, foi tema de debate num
programa de TV. Um dos debatedores, consternado com a qualidade do espetáculo,
disse: qualquer brasileiro com mais de cem de QI deve estar envergonhado. A
hipocrisia da homenagem aos mortos na pandemia, a qualidade do intérprete, a
própria live, eram uma visão rastaquera do Brasil.
Não trabalho com critérios de QI, nem conheço bem as
diferenças entre seus números. Imagino que Paulo Guedes, a julgar pela
admiração da elite brasileira, tenha um dos índices mais elevados.
A impressão que tive dele na reunião de 22 de abril não é
boa. Não tanto por se inspirar num ministro da Economia nazista, nem por propor
trabalhos militarizados para os jovens. O que me chamou a atenção foi ouvi-lo
dizer que leu oito livros para cada uma das experiências de reconstrução alemã.
Nelson Rodrigues, quando alguém argumentava com números e
frações, 50,2, por exemplo, perguntava: para que os quebrados? No meu caso,
perguntei a mim mesmo, por que uma simetria tão rigorosa de leitura? Não seria
algo para impressionar a maioria de iletrados em torno da mesa?
Paulo Guedes está enganado. Estamos tentando segurar a onda
dessa grotesca vulgaridade do governo brasileiro. Quando se faz o movimento
Stop Bolsonaro lá fora é para mostrar que nem todos os brasileiros compartilham
essas ideias retrógradas.
Paulo Guedes apontou para nos representar no Banco Mundial
um homem que diz odiar a expressão “povos indígenas”. Essas duas participações,
uma no campo da estética, outra, no da economia, são suficientes para que se
olhe no espelho e pergunte: serão mesmo os outros brasileiros que comprometem
nossa imagem no exterior?
Os liberais brasileiros têm uma longa relação com o
autoritarismo. Alguns de alto nível, como Milton Campos e Pedro Aleixo,
tentaram ser discretos no seu escorregão histórico.
Os liberais na economia parecem topar tudo por seu projeto.
Assim como os estatizantes também topam. Se dependêssemos do radicalismo dos
primeiros, estávamos sem um instrumento essencial nessa crise: o SUS. Se
dependêssemos dos estatizantes radicais, não teríamos privatizado as
telecomunicações e nem amenizado o impacto da pandemia.
Guedes, Bolsonaro e os militares precisam saber que também
somos brasileiros e que grande parte de nosso poder depende da arte, da
diplomacia da paz, de uma respeitada legislação ambiental.
Eles demoliram nosso soft power para
colocar no seu lugar essa caricatura de imagem que se transforma em piada nos
programas de TV em Portugal, em irritação no norte da Europa.
Eles riscaram o Brasil do mapa mundial. Deveriam ter a
lucidez de renunciar e deixar que o recoloquemos. Não é só uma questão
narcisística de imagem: é de nossa sobrevivência que se trata.
Já não podemos sair, os capitais dos fundos de pensão não
querem entrar, daqui a pouco boicotam nossos produtos no exterior. Por que não
se reúnem na intimidade para ouvir o presidente da Embratur tocar a “Ave
Maria”? Há espaço para tudo aqui dentro. Mas nem tudo representa o Brasil.
Artigo publicado no jornal O Globo em 06/07/2020

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