É tênue a fronteira entre a virtude da persistência e o erro
da teimosia. Essa dúvida deveria frequentar o universo de reflexões do
ministro da Economia, Paulo Guedes, após ter sido, mais uma vez, desautorizado
publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro.
Desde o advento da pandemia do coronavírus Guedes foi posto
diante do desafio de interromper bruscamente a execução de uma política liberal
para adotar por prazo indefinido seu oposto, ou seja, uma linha emergencial
assistencialista, do que não se mostrou capaz. Tratou a pandemia, no contexto
econômico, como uma “gripezinha”.
Esquivou-se de uma reforma tributária suspeita, com agendas
ocultas, para nela pegar carona enxertando na sua tramitação um novo imposto,
no qual enxerga a única saída para atender a pressão por mais gastos que
garantam a reeleição do presidente Bolsonaro.
Enquanto aposta nessa possibilidade, alterna propostas
politicamente irreais que tira de programas sociais já consolidados os recursos
que lhe cobram para a ampliação do Bolsa Família – o tal Renda Brasil.
Bolsonaro tomou gosto pelo efeito eleitoral do auxílio emergencial de R$ 600 e
quer perenizá-lo.
Fora do novo imposto, resta furar o teto de gastos. Mas como
este limita as despesas à inflação, ainda assim a conta não fecha. Como o
Congresso não quer mais imposto e nem o fim do teto, Guedes pode agora estar
persistindo no erro, o que o coloca no plano da teimosia. Talvez por isso
tenha reagido à fala presidencial com uma platitude. “Ele é o presidente, é ele
quem decide”.
O que o presidente já decidiu é que não abrirá mão da
estabilidade eleitoral que o assistencialismo na pandemia lhe proporcionou.
Quer ir adiante e tirar-lhe o caráter emergencial, ainda que isso lhe custe
reproduzir com Guedes o processo de fritura a que submeteu Sérgio Moro.
Custa pouco, apenas o tempo suficiente para que o chamado
mercado dê Guedes por carta fora do baralho. Não só porque a corrente
antagônica à austeridade fiscal no governo ganha musculatura no conflito
interno, como por não ter materializado suas metas reformistas, o que as tornam
peças retóricas cujo poder de sedução esgotou-se.
Se o enredo em curso agravar o desgaste de Guedes não será
surpresa sua troca pelo ex-auxiliar e hoje ministro do Desenvolvimento
Regional, Rogério Marinho, economista muito mais afinado com os propósitos de
Bolsonaro do que o atual ministro da Economia. Não se trata de especulação, mas
de um mero exercício de lógica que pode levar a outro nome.
O que a história mostra é que o chamado “fogo amigo” sobre
ministros da Economia (antes Fazenda) quando ganham corpo, mais cedo ou mais
tarde confirmam o ditado popular da água mole em pedra dura, que tanto bate até
que fura.
O que está em curso é, portanto, a troca do modelo liberal
que serviu na campanha para seduzir o mercado e Guedes, por outro que busca
reproduzir o ciclo desenvolvimentista da época do regime militar, refletido no
Pró-Brasil, que Guedes corretamente percebeu como um golpe no seu projeto.
Acertou no diagnóstico, mas errou de pessoa. Viu no colega
Rogério Marinho o Judas de seu enredo, mas este apenas traduzia a vontade
presidencial.
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