Em 15 meses de pandemia, o presidente Jair Bolsonaro nunca se mostrou preocupado com a gravidade da Covid-19, tratada como “gripezinha”. Vociferou contra medidas de restrição adotadas por governadores e prefeitos, desprezou o uso de máscaras e não se empenhou por vacinas. Não chega a surpreender, portanto, seu aval para a Copa América no Brasil, entre 13 de junho e 10 de julho, num momento em que o país vive a iminência de uma terceira onda de contágio.
A competição estava programada para ser realizada na Colômbia e na Argentina, mas os anfitriões declinaram. Às voltas com uma grave crise política e social, refletida em conflitos que já mataram mais de 50 pessoas, o governo colombiano avisou à Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) que não teria condições de sediá-la. Quem assistiu à partida entre Atlético Mineiro e América de Cali pela Libertadores, em 13 de maio, tem certeza disso. Ela foi paralisada cinco vezes pelas bombas que estouravam no entorno do estádio, em Barranquilla. A Argentina também alegou falta de condições para organizar o torneio, devido ao agravamento da pandemia no país.
Bolsonaro confirmou ontem a realização da Copa América no Brasil com quatro sedes: Brasília, Cuiabá, Goiânia e Rio. Não se sabe se houve avaliação técnica sobre os possíveis efeitos na saúde pública. Na segunda-feira, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, minimizou os riscos. Disse que serão dez equipes, 65 pessoas em cada delegação e jogos sem torcida. Garantiu que todos serão vacinados.
A competição não se resume, porém, a delegações viajando para lá e para cá. A Copa América mobiliza um sem-número de cartolas, jornalistas e demais equipes para organizar os jogos. A desejável vacinação dos participantes também não é algo simples. Parte dos países já imunizou seus atletas, mas nem todos, como o Brasil. A Conmebol ofereceu 50 mil doses da CoronaVac às confederações. Porém a proteção não é imediata, e o torneio começa no próximo dia 13.
É um erro argumentar que as competições na América do Sul estão acontecendo normalmente. O vírus tem sido um adversário implacável. Em maio, na Copa Libertadores, o River Plate, da Argentina, teve de improvisar no gol um jogador de linha, tantos eram os atletas infectados pela Covid-19.
Não é razoável sediar a Copa América num momento em que se anuncia um novo colapso na saúde em consequência do aumento no número de hospitalizações. Em vários estados, governadores e prefeitos estão retomando ou ampliando medidas de restrição.
Caso seja inevitável receber a competição, será preciso respeitar protocolos rigorosos para reduzir os riscos de transmissão. Apesar dos prazos exíguos, a vacinação dos atletas deve ser priorizada com as doses oferecidas pela Conmebol. Testagens e rastreamentos são fundamentais. E a ausência de público é ponto indiscutível, independentemente da posição da Conmebol sobre torcidas. É o mínimo que se pode fazer para que o vírus não venha a ser o grande vencedor do torneio.

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