Quem denunciou a mesada a parlamentares para aprovação de projetos do governamentais, o chamado mensalão, foi um congressista da própria base do governo: o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que apoiou Lula no segundo turno da eleição de 2002 e fazia parte de um conselho político do presidente.
Agora, é novamente um governista, o deputado Luís Miranda (DEM-DF), apoiador de Jair Bolsonaro, quem denuncia um possível esquema de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin. Segundo o parlamentar, o presidente da República teria apontado o líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros, de ser o mentor do esquema.
Como foi divulgado à época do mensalão, o estopim para a denúncia foi a disputa entre PT e PTB por uma diretoria dos Correios. Havia insatisfação entre os partidos aliados pelo fato de a composição do ministério não corresponder à representação partidária na Câmara dos Deputados. O PT ocupava 70% das pastas do ministério de Lula, mas tinha apenas 20% dos deputados.
Sentindo-se alijados da composição do ministério e das decisões governamentais, o PDT, presidido por Leonel Brizola, rompeu com o governo ainda em 2003 e o então PPS, hoje Cidadania, presidido por Roberto Freire, deixou a base governista em 2004, antes do estouro do escândalo do mensalão, em 2005.
Apesar do denunciante do mensalão, Roberto Jefferson, não ter boa reputação, duas CPIs foram instaladas, a CPI dos Correios e a CPI do Mensalão. O esquema foi revelado e descobriu-se que além do PT e do PL do deputado Valdemar Costa Neto, o partido que tinha mais parlamentares envolvidos no mensalão foi o PP, cujo presidente de honra era Paulo Maluf. O PP – sucessor da velha Arena e depois PDS, partidos que apoiaram o regime ditatorial de 1964–, é o partido de Ricardo Barros e foi por muito tempo o partido de Jair Bolsonaro.
Foram condenados pela Ação Penal 470, a do mensalão, relatada pelo ministro Joaquim Barbosa, então presidente do Supremo Tribunal Federal, os seguintes deputados da cúpula do PP: Pedro Corrêa (Presidente do PP), Pedro Henry (líder da bancada do PP na Câmara Federal) e José Janene. O plenário do STF também condenou Roberto Jefferson, a cúpula do PT e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entre outros.
O deputado Luís Miranda (DEM-DF), pressionado pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS), afirmou que Bolsonaro apontara Ricardo Barros como o homem por trás do esquema da Covaxin.
Os antecedentes de Ricardo Barros não são bons. Ele é investigado pelo Ministério Público por ter feito contrato, quando foi ministro da Saúde no governo do presidente Michel Temer, com uma empresa de insumos médicos, a Global, que recebeu recursos públicos sem que fizesse a entrega dos medicamentos. Francisco Maximiano é sócio da Global e também da Precisa Medicamentos, empresa intermediária na compra da Covaxin.
A CPI da Pandemia deve investigar a fundo a denúncia trazida a público pelo servidor do ministério da Saúde e pelo seu irmão, o deputado Luís Miranda. Como ficou demonstrado no mensalão, tentar desqualificar os denunciantes não impedirá que a verdade dos fatos apareça.
Joaquim Barbosa foi por muito tempo o inimigo nº 1 dos militantes xiitas do PT que não puderam acusar o ministro do STF de fazer parte de uma conspiração da elite branca de olhos azuis. Como se sabe, apesar das hostilidades sofridas, Joaquim Barbosa filiou-se ao PSB em 2018 e teve a grandeza de apoiar no segundo turno da eleição o candidato do PT, Fernando Haddad, contra o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.
* Cláudio de Oliveira é jornalista e cartunista e autor dos livros ERA UMA VEZ EM PRAGA – Um brasileiro na Revolução de Veludo e LÊNIN, MARTOV A REVOLUÇÃO RUSSA E O BRASIL, entre outros.

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