terça-feira, 7 de setembro de 2021

BOI VOADOR, FADO TROPICAL

Tânia fusco, Blog do Noblat, Metrópoles

A história do Boi Voador aconteceu em Recife, Pernambuco, no século VXII, e está contada pelo frei Manuel Calado, no livro O Valoroso Lucidemo, de 1648, quando parte do nordeste brasileiro foi colônia holandesa – entre 1630 e 1654.

Pernambuco era a sede desse Brasil holandês que tinha como capital a Cidade de Maurícia – homenagem ao Conde Maurício de Nassau, que ali governou de 1637 a 1643.

Dado a grandes sonhos e grandes obras, Nassau construiu pontes sobre o rio Capiberibe, unindo Recife à cidade Maurícia e ao continente.

Para trazer mais pagantes (de pedágio) à inauguração das pontes, o danadinho do Nassau anunciou que naquele dia glorioso um boi voaria. O truque para produzir o inusitado foi empalhar a carcaça de um boi falecido.

Com povo na rua, fez desfilar pelas pontes um boi de bons modos que, ao fim do trajeto, foi devidamente escondido, dando espaço ao voo, movido por cordas, do bovino voador.

Em 1973, essa história, aqui resumida, virou marchinha na peça “Calabar: Elogio à Traição”, arte de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra. Ficou assim:

Quem foi, quem foi

Que falou do boi voador

Manda prender esse boi

Seja esse boi o que for

O boi ainda dá bode

Qual é a do boi de revoa

Boi realmente não pode

Voar atoa

É fora, é fora, é fora

É fora da lei, é fora do ar

Segura esse boi

É proibido voar

Domingos Calabar, todo mundo sabe, na versão oficial, foi um senhor de engenho de Alagoas que, em 1632, se bandeou para os holandeses, ajudando a Companhia das Índias Ocidentais a vencer portugueses e, por um tempo, aqui fincar bandeira. Calabar acabou traído. Julgado e enforcado. Os holandeses também perderam a peleja e voltaram pra casa.

Nos idos de 70, tempos de pouca prosa e muito pau, a peça Calabar foi, of course, proibida pela censura. Mas as 11 músicas que embalavam a história seguem belas, muito bem cantadas.

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Versos que, na versão original, eram declamadas por Ruy Guerra, angolano de gostoso sotaque lusitano.

Longa e linda, Fado Tropical é um lamento. Perfeito para ouvir sempre. Particularmente em feriados quentes, de possíveis tempestades.

Oh, musa do meu fado

Oh, minha mãe gentil

Te deixo consternado

No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata

Não esquece quem te amou

E em tua densa mata

Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Declamado: “Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar

Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga

Alecrins no canavial

Licores na moringa

Um vinho tropical

E a linda mulata

Com rendas do Alentejo

De quem numa bravata

Arrebata um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Declamado: “Meu coração tem um sereno jeito

E as minhas mãos o golpe duro e presto

De tal maneira que, depois de feito

Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito

É que há distância entre intenção e gesto

E se o meu coração nas mãos estreito

Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta

Ostento a aguda empunhadora à proa

Mas meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa

Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas

Jasmins, coqueiros, fontes

Sardinhas, mandioca

Num suave azulejo

E o rio Amazonas

Que corre trás-os-montes

E numa pororoca

Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um império colonial

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um império colonial

De verdade, boi voador não existe. É só uma alegoria. Boi anda em pasto, com as quatro patas no chão. Desembestado, oferece perigo. Melhor evitar proximidade. É mais seguro.

Os fados têm sonoridade triste. Mas são belos. Não chore.

Hoje é nosso 199 dia da Independência. Ano que vem, serão 200. Um ano passa rápido. Mantenha a calma.

Tânia Fusco é jornalista

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