Nessa última quarta-feira, 1 de junho de 2022, a intrépida Rosa da Fonseca desabrochou pássaro e alçou seu voo. Naquela mesma manhã uma cortina d’água derramava-se sobre as ruas da cidade, escorria pelos becos onde as vozes e o caminhar daquela mulher ressoavam em todos os tempos. Na vida fizera suas escolhas, não por mero capricho, mas pela lucidez com que exercitava sua leitura de mundo. Socióloga de práxis revolucionária enveredou por caminhos desafiadores em busca da emancipação humana e que agora vive no limiar da emancipação da natureza.
Natural de Quixadá. Nasceu no caminho das pedras, à sombra da exuberante e desafiadora paisagem dos monolitos que despontam no céu aberto do semiárido. Nos perguntamos de que é feito essa mulher? Do amor e da liberdade! Mais também foi forjada nessa origem insólita da mãe natureza que envolve, abraça, alimenta e cuida. Um aprendizado que nos motiva exercitar os laços da resistência que são os verdadeiros legados da vida de Rosa. Mulher, professora, revolucionaria, companheira e militante. Ela que nos ensinou a pensar o impensável. E quando nos porões da ditadura o seu corpo foi marcado pela tortura, a sua mente e o seu coração se expandiram em definitivo para os horizontes de um novo devir para a humanidade e o planeta.
A sua espiritualidade viva fez transcender sua radicalidade. Uma lutadora que diante do diferente manteve-se terna e sempre respeitosa. Esse ser humano de sonhos acreditava que, somente, a emancipação humana seria capaz de colocar freios na sanha destruidora do capitalismo que segue explorando e escravizando os seres vivos com a fome, a violência, as guerras e ameaças constantes ao ecossistema. Sua voz que não cala vive na representação em defesa das minorias, na necessidade de um sonho imensurável e inadiável, das vivencias do coletivo em defesa da democracia, na luta pela anistia e contra a opressão. No combate a violência contra a mulher por todas nós em União das Mulheres Cearenses (UMC). Basta do mundo do macho! Não aceitamos a barbárie. No seu leito depositamos esse poema que fala do nosso amor por você.
Querida amável guerreira
Que exala na pele e no nome
O cheiro e a beleza
Da rosa do amor
Mulher de fibra
Girassol das nossas vidas
No jardim da resistência
Feminicídio, misoginia. Basta!
O ódio do patriarcado
Sobre nós durante séculos
Não impediu o nascedouro
Do maior de todos os tesouros
Manifesto de afeto
Carinho e gratidão
Por você ser o que é
Filha da utopia rima do coração
Dia após dia, sois a abelha
Ave do esperançar
Cultivo de amor, autonomia
Emancipação a versejar
A bem da humanidade
Rosa Maria, Maria Rosa
Sementes fêmeas da imortalidade
Brotos da luta e da prosa
Das comunas vem a gratidão
Desde o Cariri, terra de Bárbara
Beata Maria Madalena devoção
Mae da liberdade e da cura
Salve! Rosa Ventania
Alegria do porvir
Irma sem alforria
Entre nós sempre a florir.
Íris Tavares - historiadora e escritora

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