domingo, 5 de junho de 2022

A ANDARILHA DA LIBERDADE

Íris Tavares, Leia Sempre

Nessa última quarta-feira, 1 de junho de 2022, a intrépida Rosa da Fonseca desabrochou pássaro e alçou seu voo. Naquela mesma manhã uma cortina d’água derramava-se sobre as ruas da cidade, escorria pelos becos onde as vozes e o caminhar daquela mulher ressoavam em todos os tempos. Na vida fizera suas escolhas, não por mero capricho, mas pela lucidez com que exercitava sua leitura de mundo. Socióloga de práxis revolucionária enveredou por caminhos desafiadores em busca da emancipação humana e que agora vive no limiar da emancipação da natureza.

Natural de Quixadá. Nasceu no caminho das pedras, à sombra da exuberante e desafiadora paisagem dos monolitos que despontam no céu aberto do semiárido. Nos perguntamos de que é feito essa mulher? Do amor e da liberdade! Mais também foi forjada nessa origem insólita da mãe natureza que envolve, abraça, alimenta e cuida. Um aprendizado que nos motiva exercitar os laços da resistência que são os verdadeiros legados da vida de Rosa. Mulher, professora, revolucionaria, companheira e militante. Ela que nos ensinou a pensar o impensável. E quando nos porões da ditadura o seu corpo foi marcado pela tortura, a sua mente e o seu coração se expandiram em definitivo para os horizontes de um novo devir para a humanidade e o planeta.

A sua espiritualidade viva fez transcender sua radicalidade. Uma lutadora que diante do diferente manteve-se terna e sempre respeitosa. Esse ser humano de sonhos acreditava que, somente, a emancipação humana seria capaz de colocar freios na sanha destruidora do capitalismo que segue explorando e escravizando os seres vivos com a fome, a violência, as guerras e ameaças constantes ao ecossistema. Sua voz que não cala vive na representação em defesa das minorias, na necessidade de um sonho imensurável e inadiável, das vivencias do coletivo em defesa da democracia, na luta pela anistia e contra a opressão. No combate a violência contra a mulher por todas nós em União das Mulheres Cearenses (UMC). Basta do mundo do macho! Não aceitamos a barbárie. No seu leito depositamos esse poema que fala do nosso amor por você.

Querida amável guerreira

Que exala na pele e no nome

O cheiro e a beleza

Da rosa do amor

Mulher de fibra

Girassol das nossas vidas

No jardim da resistência

Feminicídio, misoginia. Basta!

O ódio do patriarcado

Sobre nós durante séculos

Não impediu o nascedouro

Do maior de todos os tesouros

Manifesto de afeto

Carinho e gratidão

Por você ser o que é

Filha da utopia rima do coração

Dia após dia, sois a abelha

Ave do esperançar

Cultivo de amor, autonomia

Emancipação a versejar

A bem da humanidade

Rosa Maria, Maria Rosa

Sementes fêmeas da imortalidade

Brotos da luta e da prosa

Das comunas vem a gratidão

Desde o Cariri, terra de Bárbara

Beata Maria Madalena devoção

Mae da liberdade e da cura

Salve! Rosa Ventania

Alegria do porvir

Irma sem alforria

Entre nós sempre a florir.

Íris Tavares - historiadora e escritora

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